Escrito por: Delacroix
Chegamos longe! Quarta, e última, parte do especial sobre religiões em jogos de terror. Eu até tinha planejado fechar tudo em cinco posts, mas não achei conteúdo suficiente para escrever um quinto, completo e interessante, pedaço sobre o assunto. É claro que existem outros jogos de terror que tratam sobre religião e que possuem cultos maléficos por debaixo dos panos, e aí entrariam várias outras obras, como Dante’s Inferno, Devil May Cry e até Castlevania. E mais. Porém, eu não só resolvi me ater a títulos de terror que são Survival Horrors, como também preferi não estender muito o especial. Para não ficar chato. Dito isso, as seitas religiosas de que irei falar nesse post fogem um pouco daquelas de que falei anteriormente, principalmente pela proximidade que elas estabelecem com correntes filosóficas e científicas. Novamente, dobradinha: A Família de Rapture (Bioshock 2) e a Unitologia (Dead Space).

A Família de Rapture (Bioshock 2)
“Para cada escolha, há uma consequência. Com cada ação, mudamos o mundo. Um homem escolhe uma cidade, livre da lei e de Deus. Mas outros escolhem corrupção. E então a cidade desmorona. Se o mundo renascesse em sua imagem, seria o paraíso ou a perdição?”

Mais uma vez, a fé surge em meio a pobreza. A Famíla de Rapture (sim, traduzido) surgiu em um dos distritos mais pobres de Rapture, a cidade submersa erguida por Andrew Ryan. O grande mote da seita é a união, a ideia de um uníssono que integre todos os habitantes da cidade, a criação de uma consciência una, que extinga a noção do “eu”. Já dá para perceber de que estamos falando de algo muito diferente (e profundo) do que a simples adoração à alguma entidade dotada de poderes divinos, detentora da chave para o pós-vida.  A Famíla de Rapture possui embasamento em concepções filosóficas, como o Utilitarismo de John Stuart Mill, um dos grandes nomes britânicos do século XIX. Para não complicar a cabeça falando sobre filosofia, interessa saber apenas que Stuart Mill endossou um pensamento que trata sobre a maneira com a qual as pessoas vivem (e deveriam viver) em coletividade: a conciliação do bem individual (eu) com o bem coletivo (nós). É basicamente isso o que propõe a seita idealizada pela psiquiatra Sofia Lamb, cujas ideias estão registradas no livro Unity and Metamophosis, de sua própria autoria. Lamb ainda vai além: sua máxima é utilizar a filha (ah, essas mães!) como receptáculo para acomodar todas as consciências de Rapture.   
Ah, essas (péssimas) mães!
Como eu disse, uma das principais diferenças do culto de Rapture está associada à sua conexão com reflexões filosóficas, coisa que não vemos nas seitas mencionas nos posts anteriores. A Família de Rapture não acredita em outras realidades, em espíritos, rituais ancestrais, deuses antigos etc.  Até porque, ela segue o  preceito de onde está inserida: uma cidade construída para abrigar aqueles tidos como gênios, pensadores e artistas que eram impedidos de se manifestar livremente, vítimas, no mundo emerso, de hipocrisias políticas, morais e religiosas. Diferente d’A Ordem em Silent Hill, da Mana em Hanuda, Los Illuminados em El Puebo e das práticas Xintós de Minakami, por exemplo, estamos falando de um culto pseudo-religioso que surgiu em uma sociedade pautada na “razão”, edificada por uma elite intelectual, e não um culto surgido em qualquer cidadezinha remota, abandonada à própria mercê. E este é um dos motivos pelo qual a Família de Rapture só tornou-se poderosa depois da Guerra Civil e da morte do seu principal opositor, Andrew Ryan. O culto de Lamb, apesar de ter surgido em um cenário distinto daqueles dos jogos que usei como exemplo, contraditoriamente só ganhou força nas mesmas condições: na pobreza, na desordem e na desilusão de uma cidade. O culto ganhou força entre lunáticos, viciados decrépitos que viraram fantoches nas mãos de Lamb. A Família de Sofia Lamb não teria alcançado a projeção que alcançou na Rapture original, uma Rapture sã, construída justamente para negar qualquer tipo de devoção irracional.

Eu não comentei sobre o símbolo que caracterizavam as outras seitas de que falei por não considerar relevante. Aqui, eu acho um pouco mais interessante: a insígnia da Família de Rapture é uma borboleta, um dos símbolos mais notórios de transformação, renascimento e beleza. A borboleta encontra espaço na psicanálise, de onde Lamb provavelmente tirou a ideia. Para ela, Rapture é uma enorme larva que, a partir de Eleanor, se aprisionará em uma crisália para então renascer em algo belo e único: uma borboleta.

Principal objetivo: transformar “todos” em “um”. Criar um ser que abrigue todos os outros.

Divindades: não há nenhum deus na seita, somente o culto à personalidade de Eleanor Lamb, a filha da idealizadora do grupo. A crença é a de que Eleanor é a única pessoa capaz de abrigar múltiplas consciências, formando assim uma existência singular. O motivo de ela ser tão especial é o fato de ter consumido altas doses de Adam (a substância maluca de Bioshock, que altera o DNA) quando Little Sister.      
Essa Little Sister provavelmente é Eleanor.
Principais adeptos: como eu já disse trocentas vezes, a mentora do grupo é Sofia Lamb, uma das principais antagonistas ao regime de Andrew Ryan.  Altruísta, começou a disseminar suas ideias de coletividade entre as pessoas que compunham os distritos mais pobres da cidade. Temida por Ryan, tamanha tornava-se sua influência, foi presa. Quando de viu livre, anos depois, descobriu que sua filha havia sido convertida em uma Little Sister.  No fim das contas, percebeu que isso não era de todo mal, pelo contrário, percebeu na garota a única maneira de concluir os seus planos. Outros adeptos incluem o fanático Simon Wales e o Dr. Gilbert Alexander, o primeiro candidato a receptáculo, convertido em uma aberração depois de os experimentos fracassarem.
  
A Unitologia (Dead Space)
“Criatura sagrada, transforme-me em seu servo, mostre-me o caminho para o esclarecimento, enquanto transforma minha carne e liberta minha alma”

De todas as seitas de que tratei nesse especial, a de Dead Space é sem dúvidas a que menos faz sentido. Inspirado na Cientologia, aquela religião maluca do Tom Cruise e do John Travolta (falarei mais adiante), a “Unitologia” mescla ciência e fé, a combinação mais incoerente e estapafúrdia que se pode imaginar. É, falei mesmo. Mas olha só porque: a ciência é o contraponto de qualquer religião. A ciência busca evidências, provas, ela não acredita na devoção, a concepção científica do mundo recusa a existência de uma entidade superior, criadora e redentora. Um grupo que, de certa forma, se decida ao culto à ciência, à devoção cega ao cientista Michael Altman e à crença em uma forma de vida alienígena (sim, esse é o nível da coisa) está totalmente fora do parâmetro ciência. 

Como eu já ha via mencionado no especial sobre “O Terror Especial”, as inspirações de Dead Space, o que inclui a seita de que estamos tratando, tem um dedo do cinema e da literatura. Os Markers, por exemplo, são claras referências aos monólitos da obra 2001: Uma Odisséia no Espaço. Quem assistiu/leu a história de Kubrick/C.Clark sabe do que estou falando. A maior base do grupo, no entanto, vem da Cientologia, citada no parágrafo anterior. Para quem não conhece, a religião foi criada em meados da década de cinquenta por Lafayette Rubbard, um autor de ficção científica (!). Misteriosa, conhecida por perseguir aqueles que, de alguma maneira, a difamam, acredita na soberania da espiritualidade do homem. Assim como ela também acredita  em LORDE XENU, UM DITATOR INTERGALÁCTICO QUE MANDAVA PRISIONEIROS PARA O PLANETA TERRA, ONDE ELES ERAM JOGADOS EM VULCÕES E EXPLODIDOS COM BOMBAS DE HIDROGÊNIO!!!!!!!!!!!!!!! Ok, a parte sobre um ditador intergaláctico exterminar alienígenas jogando-os em vulcões, na terra, é altamente factível... o problema é um ditador intergaláctico exterminar alienígenas jogando-os em vulcões, na terra, e depois EXPLODI-LOS com bombas de hidrogênio!!! QUAL A NECESSIDADE DISSO?! Eu, e imagino que vocês e todo mundo aqui do VGD, acredita nessa história (nesse fato, melhor dizendo) sobre Lorde Xenu. O que não dá para acreditar é que qualquer alien sobreviva à queda em um vulcão! Lorde Xenu, deus-do-céu, pare de desperdiçar bombas de hidrogênio! Ou exploda os aliens e depois jogue-os no vulcão... Não, pera... Bem, felizmente este é só um detalhe, o que importa mesmo é o fato de a alma desses pobres bichos ter vagado pela terra durante séculos, POSSUINDO homo-sapiens... Eu vou dar uma pausa e reservar esse intervalo para que possamos pensar um pouquinho sobre o que acabamos de ler. Ufa! Pronto! Não se esqueça, eu disse que o mentor da Cientologia era um escritor sci-fi.  

Mas não vamos nos preocupar com coisas mínimas, ajustem os óculos e continuemos:   

Voltando à Unitologia, é engraçado perceber que o próprio Altman nunca aprovou as balelas que diziam sobre sua capacidade de conversar com o Marker. Diferente dos outros que se aproximavam do objeto, ele possuía uma resistência maior, combatendo com êxito as alucinações provocadas pelo artefato alienígena. Altman empenhou-se em decifrar os escritos misteriosos do monólito e divulgou suas descobertas ao mundo. Foi assassinado pelo governo e, daí em diante, transformou-se no mártir dos unitólogos. A religião, no universo de Dead Space, é ampla e altamente popular, servindo de consolo principalmente àqueles que estão longe da terra, que agora habitam colônias espaciais como Sprawl, edificada em uma das luas de Saturno. Os principais opositores do culto são as autoridades do EarthGov, acusados não só do assassinato de Altman, como também de perseguir fiéis da religião. Outro ponto importante (e que mais uma vez remete à Cientologia) é o alto preço cobrado dos súditos do grupo, que devem pagar quantias consideráveis para ascender espiritualmente.

Princpial objetivo: criar o fenômeno da “Convergência”, que transformará todos aqueles que foram “tocados” pelos markers em um único ser, como, segundo os unitologistas, eles eram originalmente. Note que o objetivo aqui é basicamente o mesmo do da Família de Rapture: a perda da individualidade em prol de algo maior, uma vida única que deve ser indissociável. Apesar de perigosos, principalmente quando se trata de preservar sua fé, a Unitologia prega pela comunhão, pela proximidade e bem-estar espiritual de seus membros. Uma maneira de prepará-los, torná-los “compatíveis” entre si, para a integração final.   
União também é o mote da Unitologia.
Divindades: mais uma vez, não é o caso do culto à alguma entidade divina. A crença em Altman, nos markers e na Convergência se dá por motivos evolucionistas. Os unitólogos veem os necromorphs, por exemplo, como seres evoluídos, superiores, justamente por terem tido contato com algum dos monólitos alienígenas. Para eles, a Convergência é o processo final da evolução humana. Evolução não só biológica, física, aparente: é o estágio da vida do homem em que todas as problemáticas que ele desenvolveu ao longo de sua história, como as ponderações filosóficas, será finalmente sanado, todas as contradições humanas definitivamente extintas.  
O Marker, objeto alienígena adorado pelo culto. 
Principais adeptos: começando pelo capitão da USG Ishimura, Benjamin Matthius, temos o Dr. Challus Mercer, a Daina do segundo jogo e o Jacob Manik, vilão do terceiro Dead Space. O jogo de mobile da franquia é protagonizado pela Carrie Norton, a Vandal, também mebro da seita.          

Bem, gente, então é isso. E especial ficou bem longo, muito mais do que eu havia imaginado. Eu sei que ainda faltaram vários cultos, várias seitas religiosas de que não tratei. Deixem aí suas sugestões, o que vocês acham que ficou de fora, mas que eu deveria ter falado e tals. Até a próxima! E cuidado: não blasfemem o nome de Lorde Xenu porque, como sabemos, ele é mal (e possui bombas de hidrogênio)... 
...Mas Lorde Xenu também é justo, e veio pessoalmente parabenizar aqueles que leram o especial até fim!

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  1. Ah meu Deus. Tudo, menos as FUCKING BOMBAS DE HIDROGÊNIO D:
    Pufavô Lorde Xenu, não nos mate *fica de joelhos*
    (Parabéns Dela, o post ficou bom pra kawaka)

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  2. Ficou demais, valeu muito à pena ler tudo! Os cientólogos são um bando de ambiciosos e gananciosos, tão interessados só na fé "real" din, din! Sim, tem um culto muito mas muito massa no game "Sevem Clues: The Secret of Serpent Creek". Um dos melhores jogos que já joguei, só não foi tão bom quanto sua sequência que conseguiu se ainda mais legal, assustadora e sinistra. Tenho certeza que vocês vão amar esse game.

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