Escrito por: Delacroix
Gente, vocês lembram do primeiro artigo desse especial? Então, lá eu falei que dedicaria esse segundo post às principais seitas religiosas no mundo dos jogos de terror, suas bases, seus objetivos, divindades e representantes. Esse realmente era o meu objetivo, mas... esse post ficou enorme! E olha que eu só escrevi sobre dois desses cultos! Pois bem, eu terei que dividir o especial em vários outros pedaços. É, acontece. Assim sendo, nesse post eu vou falar apenas sobre A Ordem (Silent Hill) e a Mana Religion (Siren). Uma última observação: eu não vou falar tanto sobre o culto de Silent Hill (não tanto quanto eu vou falar de Siren, por exemplo) porque informações que lhe dizem respeito são relativamente fáceis de se encontrar pela net. Na verdade, para quem quiser saber mais, o próprio VGD possui um post dedicado ao assunto: http://videogamesdeath.blogspot.com.br/2013/07/curiosidades-de-silent-hill-order.html.

A Ordem (Silent Hill):
"(...) Sentindo pena pela tristeza que havia tomado a terra, Deus nasceu dessas duas pessoas" 

A Ordem é o grupo responsável por parte dos problemas que assolam Silent Hill. Introduzida no primeiro jogo, a seita mescla o judaico-cristianismo com outras religiões, tais quais o xamanismo e as manifestações pré-cambrianas. O culto possui laços estreitos com o processo histórico da cidade, tendo como base, inclusive, práticas dos nativos que habitavam aquela religião antes da chegada dos colonos britânicos. Alheia aos valores maniqueístas (relação entre bem x mal) predominantes em grandes religiões, A Ordem é violenta e pragmática, capaz de torturar e liquidar qualquer um que lhe seja contrária.

Eu não sei que significado tem para os japoneses, mas aqui no ocidente, onde os valores cristãos são (de um modo ou outro) onipresentes, é fácil perceber quão sinistra e maléfica é A Ordem. A relação com o cristianismo é clara (e talvez por isso incomode), podemos encontrá-la, por exemplo, no nome das principais deidades do culto, como Samael e Valtiel (o sufixo “el” é comumente utilizado para referir a arcanjos, uma casta superior de anjos). Outra proximidade óbvia com a Igreja latina está na canonização de alguns de seus membros fundadores, como Santa Jennifer (Carroll), acusada de bruxaria e queimada viva no século XVII. Todo esse vínculo com o cristianismo foi sendo consolidado com o passar dos anos, depois da chegada dos britânicos. Um ponto interessante é que, apesar da crença em santidades, do culto a ídolos, os ingleses eram (e são) protestantes, não católicos. Essas características não competem ao protestantismo. Eu me pergunto em que momento Silent Hill tornou-se tão católica. De todo modo, podemos deduzir que os primeiros membros do culto eram ex-adeptos do catolicismo.
Santa Jennifer: a influência católica pode ser percebida na pintura.
As aspirações xamânicas, por outro lado, devem ter sido responsáveis por fazer com que os ensinamentos ancestrais daquelas terras não fossem perdidos. As práticas dos antigos nativos provavelmente permaneceram vivas graças a sacerdotes e bruxos que, futuramente, introduziriam tais conhecimentos entre os recém-chegados cristãos.    

A Ordem se divide em séquitos, unidades menores que se dedicam às suas particularidades, às suas próprias maneiras de cultuar o mesmo deus, quais mensageiros e missionários seguir e, consequentemente, de que forma alcançar o paraíso prometido. O séquito da Holy Mother é o de maior projeção na franquia. Liderados por Dahlia Gillespe, e posteriormente por Claudia Wolf, eles acreditam na mãe e filha de deus (soa familiar?), aquela que, por meio da incubação de dor e ódio (que é tipo meio que mais ou menos ser QUEIMADA viva!), dará à luz ao criador. Esse negócio de tostar pessoinhas pode ser associado, em um primeiro momento, à inquisição católica. No entanto, a concepção da prática, no caso d'A Ordem, está relacionada aos rituais de sacrifício pré-cambriano, sobretudo àqueles direcionados aos deuses-sol, seres supremos dessas civilizações (Inti para os Incas, Kukulcán para os Maias e Quetzalcóatl para os Astecas).       

O culto também possui influência política e, um de seus principais aliados, é o Dr. Michael Kaufmann, diretor do hospital Alchemilla e traficante de drogas (e molestador de estagiárias, nas horas vagas). É ele, inclusive, quem fornece White Claudia para a seita, um alucinógeno utilizado em alguns rituais do grupo.

Principal objetivo: trazer seu deus de volta à vida, para que ele possa guiar todos os seus fiéis ao paraíso prometido.

Divindades: Conhecido originalmente como Samael, a entidade perdeu esse vínculo judaico-cristão no terceiro capítulo da franquia, onde passou a ser conhecido apenas como Deus, Criador do Paraíso ou Senhor das Serpentes. Segundo o mito da criação d’A Ordem, as pessoas existiam antes de deus (ele nasceu do sofrimento dos seres humanos), tanto é que ele não é conhecido como “O Criador” e sim como “Criador DO Paraíso’. O deus é, basicamente, mais um dos infinitos deus-sol (como os que já mencionei) cultuados na América. A imagem dele no primeiro jogo, a do demônio Baphomet, foi provavelmente uma tentativa de denegri-lo e, consequentemente, de impedir que a seita conseguisse novos fiéis católicos. Essa prática de deturpação foi (e é) muito comum no cristianismo. A forma de Deus está relacionado com a concepção que tem dele aquele que o evoca. Para você ver como Dahlia era uma velha corrupta: na cabeça dela, Deus era mesmo a monstruosidade deturpada que os opositores da seita disseminaram. 
Deus, no SH3, segundo Claudia: a própria Alessa.
Outras divindades incluem seus colegas de balada, como o anjo Valtiel, Metatron, Lobsel Vith e o demônio vermelho, Xuchilbara. Os três primeiros possuem inspirações claras do judaico-cristianismo: Valtiel e Lobsel em relação ao sufixo, enquanto Metatron diz diretamente do anjo supremo de setenta e duas asas, mais forte e próximo de Deus que o próprio anjo Miguel. Xuchilbara soa como o nome de divindades pré-colombianas, como os astecas Xochipilli (amor, beleza, juventude) e Xolotl (fogo, relâmpago, espíritos). Dizem que Pyramid Head é o Xuchilbara; se for o caso, então foi inspirado em algum deus das putarias.


Principais Adeptos: como vocês podem imaginar, os principais membros do grupo não são as pessoas mais sãs do planeta. Um giro rápido sobre eles: Dahlia Gillespie, a mítica Bruxa do 71, e pior mãe do mundo; Claudia Wolf, a menina que não quer sentar; e Vincent Smith, o cara das brincadeiras de mau gosto.  


Mana Religion (Siren)
"Os Participantes se vestem de preto e submergem nas águas do 'Mana River' no último dia do calendário lunar"

Eu escolhi falar de Siren agora não por coincidência, o jogo foi concebido pelo mentor do primeiro Silent Hill. Há bastante em comum entre as seitas de ambos os títulos, como a ânsia escrota de queimar menininhas vivas, por exemplo. A Mana é a religião predominante em Hanuda, um vilarejo miserável, escondido nas montanhas do Japão. A principal diferença entre os dois cultos é que, diferente d’A Ordem, o fanatismo come solto em Hanuda: a religião é conhecida e praticada por grande parte de seus habitantes (assim como no mundo real, religiões têm facilidade de se enraizar em lugares pobres). Em relação ao conceito, outra divergência básica é a influência de lendas e crenças nipônicas presentes no culto de Siren, ao contrário das influências ocidentais d'A Ordem. A história da Mana remonta a um período em que o vilarejo era assolado por uma grande fome, uma época de penúria sem precedentes. Felizmente para Hisako e alguns de seus companheiros da aldeia, eles encontraram o que parecia ser um animal robusto ,agonizante, capaz de poupá-los do desespero da fome pelas próximas horas (Hisako, aliás, estava grávida, precisava alimentar seu bebê). Então, famintos, eles devoraram a criatura. A história terminaria de modo relativamente feliz se o tal animal em questão não fosse, na verdade, UMA ENTIDADE EXTRADIMENSIONAL ALIENÍGENA QUE CAIU DO ESPAÇO!!! Com exceção de Hisako, todos foram mortos com o súbito grito da criatura. Já a garota, a pobrezinha, FOI CONDENADA A VIVER ETERNAMENTE COM A TAREFA DE TRAZER O ALIEN DE VOLTA À VIDA!!! Você definitivamente sentiria muita pena de Hisako, SE ELA NÃO QUEIMASSE VIVA UMA DAS SUAS PERSONAGENS FAVORITAS DO JOGO!!!

Mas, apesar de tudo isso, não há motivo algum para histeria, continuemos:

Após todos esses lapsos de sorte, Hisako seguiu convertendo os moradores de Hanuda, levando-os a crer em um deus que os livrariam, de uma vez por todas, de todo aquele sofrimento. Além de comilona, Hisako também é bem mentirosa. Suas descendentes, todas as garotas da família Kajiro, nascem com poderes psíquicos (ahãm, tipo a Alessa) e a única maneira de trazer a tal criatura alienígena de volta à vida é sacrificando-as em um ritual (eu já disse, tipo a Alessa), no qual elas pegam fogo (Isso mesmo). Nos eventos principais da trama, conhecemos Miyako, a vítima da vez. Também descobrimos a respeito das tentativas anteriores de realizar o ritual, todas fracassadas. 

Principal objetivo: “trazer seu deus de volta à vida, para que ele possa guiar todos os seus fiéis ao paraíso prometido”.

Divindades: Datatsushi é o nome do nosso amigo deus-alienígena altamente comestível (ou não). É um ser extradimensional com poderes divinos, provavelmente correlato de Morher e Otoshigo, as entidades sobrenaturais de Forbidden Siren 2. No remake de PS3, Blood Curse, Datatsushi é rebatizado de Kaiko e enfrenta-lo é como comer cogumelos alucinógenos, sua luta é puro LSD, um dos confrontos mais psicodélicos de todos os tempos. Vou falar só de Datatisushi.

Mas, tá, vamos falar um pouco mais sobre a concepção dele. Eu dei uma vasculhada na net e encontrei um site que associa Datatsushi ao nome Fallen Dragon's Child. Eu não entendo japonês e é pouco provável que esse seja a tradução, o significado literal da palavra. O interessante, contudo, é que "Dragon's Child" ou "Little Dragon", no japão, equivale a cavalo-marinho. É, o nome é muito mais legal do que eles merecem. Mas o que tudo isso quer dizer? Ora, muito, se levarmos em consideração que a fisionomia do deus-alien é inspirada em uma espécie de cavalo-marinho (cavalo marinho-anão). 
Para ilustrar: a espécie de cavalo marinho de que falei.
Datatsushi fantasmagórico: Veja a similaridade com a imagem acima.
Além de serem semelhantes, principalmente a versão fantasmagórica de Datatsushi, há outra coisa em comum: essa espécie de cavalo marinho, para se safar de predadores, é conhecida pela sua capacidade de se assimilar às folhagens que encontra, tornando-se praticamente invisível, uma das principais características do deus de Siren. Outra coisa interessante está no uso do folclore nipônico: a relação entre Hisako e Datatsushi tem como base uma lenda antiga chamada Nao Bikuni. Eu falarei um pouquinho mais a respeito adiante. O bacana é que, apesar de ser uma entidade alienígena, o design da divindade (assim como o de grande parte do jogo) está intimamente conectado com o fundo mar, o que explica a proximidade dos shibitos, dentre outras coisas coisas (insetos), com moluscos.         

Principais adeptos: Hisako Yao é a sacerdotisa da seita e possui milhares de anos. Está fadada a viver em um loop temporal até que consiga reparar o seu erro e reviver Datatsushi. A personagem é inspirada no conto Nao Bikuni, que eu havia mencionado,  que conta sobre uma garota que devorou uma espécie de sereia (Ningyo) e tornou-se imortal. A diferença de uma sereia do folclore ocidental para uma Ningyo é que, na versão japonesa, ela é caracterizada pela predominância dos traços animalescos. 
Nyngio: repare em como parece mais com peixe do que com uma mulher.
Em Blood Curse, Hisako é na verdade Amanda, filha de Sam Monroe. Ela acabou voltando no tempo (!) e também ficou condenada a viver um loop temporal. Outros adeptos da seita incluem todo o clã Kajiro (em especial, Jun Kajiro, um filho adotado), descendentes de Hisako e seu braço direito. A cada geração, uma garota da família Kajiro nasce para servir no ritual que ressuscitará Datatsushi. Apesar de tudo, os Shibitos não deixam de ser adeptos muito fiéis. Eles são os moradores da vila, os fiéis da Mana, que tiveram contato com o Blood River, o sangue do próprio alien. Nas horas vagas, eles assistem TV e ficam falando engraçado.

Olha só como ficou grande esse post! E não deu para falar de quase nada! Ó só, por enquanto vou encerrar por aqui. Na parte seguinte eu dou continuidade, esboçando um pouco mais sobre outras seitas religiosas. Deixem aí os comentários, sugestões e tals. Até mais! 

Alessa manda um joinha para quem leu tudo até o fim!

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