Escrito por: Delacroix

Have you seen a little girl? Just turn seven last month... Short, black hair...


Os caras da Climax estavam mesmo decididos a recontar, de alguma forma, a busca de Harry Mason por sua filha. Como já disse, Origins, em um primeiro momento, seria um remake do jogo original, mas que acabou virando um prólogo desnecessário. Shattered Memories, lançado em 2009 para Wii e, um pouco depois, para PS2 e PSP, não é um remake. Não exatamente.  Na verdade, o jogo é uma reimaginação, um título completamente novo que apenas utiliza como base a obra-prima de 1999. Já vou começar sendo polêmico: Shattered Memories é um dos melhores jogos de toda a série. 

E nem pense em ficar comparando Shattered Memories com o jogo original!
A base é a mesma: testemunhamos a busca de Harry Mason pela filha, depois de eles se envolverem em um acidente de carro. Com exceção de um ou outro paralelo, como o nome dos personagens (e, muito de longe, algumas de suas características), a relação entre Shattered Memories com a obra original termina aí. A proposta aqui é outra. A concepção de jogo, em todas as suas instâncias, difere – e muito – da do jogo de Playstation. Se você não tiver isso em mente, não o jogue. Se a sua intenção é comparar, lado a lado, os dois títulos, pare: isso não vai dar certo. No máximo, o que você vai conseguir é arruinar toda a sua experiência com um jogo incrível, que só precisa da sua compreensão para funcionar. Essa nova Silent Hill não é assolada por nenhum nevoeiro, tampouco por qualquer seita religiosa. A cidade passa, na verdade, por uma terrível temporada de inverno. Ruas inteiras recobertas por neve, vazias, à mercê dos constantes e fantasmagóricos urros e sibilos do vento. É simplesmente impossível trafegar por algumas delas. Você sentirá isso na pele, enquanto controla Harry por aí, munido apenas de sua lanterna e de seu celular, uma das novidades da qual falarei mais adiante. Por hora, você precisa saber que essa nova Silent Hill, apesar de mais sóbria, menos aterradora e misteriosa, não deixa de interessar. Seus habitantes, aqueles que cruzarão o caminho de Harry, compõem um dos melhores elencos da franquia. Diferente dos personagens ridículos de Homecoming, por exemplo, todos aqui têm um motivo de ser, contribuem e significam alguma coisa na jornada do protagonista. Suas aparições e sumiços repentinos, seus diálogos confusos, desconexos e misteriosos, por vezes, levarão ambos, Harry e jogador, a perguntas que só serão – magistralmente – respondidas no final da aventura. Eles fazem com que a trama se torne o mosaico que traduz, e muito bem, o próprio título do jogo. Daí em diante, é melhor eu guardar silêncio para não estragar surpresas. Saiba apenas que o enredo é ótimo, corajoso e sustentado por um elenco excepcional. Pode não ser um exemplo de Silent Hill, segundo as principais características da série, mas sem dúvidas o pessoal da Climax aprendeu com seus erros – e com os da Double Helix também – para desenvolver uma trama sólida e orgânica.  

Logo no começo do jogo, e em seu decorrer, somos transportados à sala do Dr. Kaufmann, psicólogo
As sessões com Kaufmann são muito boas.
que nos propõe perguntas (pessoais) e testes. De diferentes maneiras, elas serão responsáveis por mudanças no desandar dos acontecimentos, ou mesmo em outras pequenas alterações, como no visual de lugares e personagens (o que inclui os inimigos). A ideia é interessantíssima (saca só o tamanho da palavra) e funciona. No entanto, é também pouco complexa. Às vezes, as mudanças são tão simples que chegam a ser inúteis. Como mencionei, Harry possui um celular. Ele serve como HUD, é o menu do jogo. Nele, é possível salvar o progresso, receber mensagens de outros personagens, tirar fotos e até passar trotes (o que mostra o quanto ele está interessado em resgatar sua filha). Mais uma vez, uma excelente ideia que poderia ser melhor aproveitada. De novo, funciona bem, mas é rasa, as possiblidades são medidas à risca. É bacana
A Cybil Bennett desse jogo.
tirar fotos de lugares ou coisas e descobrir a que elas estão relacionadas, a qual evento, a qual crime, por exemplo. O problema é que esses lugares e objetos são sempre apontados pelo jogo, tirar foto de outras coisas é inútil, não servirá para nada. O mesmo acontece com as ligações. Em Shattered Memories, não há combate. Em situações-chave, enquanto procura por Cheryl, Harry é assombrado por uma versão alternativa da cidade. Acontece que, diferente do habitual, o Otherworld não é macabro, recoberto de sangue e ferrugem. Em vez disso, somos confrontados por uma Silent Hill congelada e pitoresca. É nesse cenário onde se desenvolve a ação do jogo. Harry não carrega qualquer tipo de arma, a não ser sinalizadores que coleta e que servem para afugentar seus inimigos, os Raw Shocks, criancinhas deformas, remelentas e nuas que te perseguirão, todas pornográficas, com ímpeto assustador. Apesar disso, o desafio é pequeno: por mais que elas te agarrem e se multipliquem, esquizofrênicas, os caminhos são até bem lineares, é até bem fácil escapar delas. É possível se esconder e consultar rotas de fuga apropriadas, pelo celular, mas, no geral, são possiblidades pouco efetivas. Eu, particularmente, fechei o jogo várias vezes, sem nunca recorrer a nenhuma dessas opções.
Os Raw Shocks, as crianças peladonas, têm aversão à luz.
No fundo, no fundo, tudo que seus inimigos querem e é um abraço.
Memories foi desenvolvido para Wii. Tecnicamente, ele é brilhante no console na Nintendo. Os gráficos são ótimos, o efeito de gelo é belíssimo, assim como os personagens e cenários. Apesar da beleza, o Otherworld, por exemplo, é pouco opressor, incapaz de ameaçar. Mesmo os inimigos não são assustadores. De modo geral, Memories é um jogo leve, que se esforça pouco para amedrontar o jogador. Por outro lado, o áudio não decepciona, talvez o único quesito que, de fato, nunca tenha desapontado, nem nos piores jogos da série. As composições merecem o elogio de sempre, Akira e Mary arrebentam mais uma vez.
No maior estilo Fatal Frame (com direito a egg), Harry também tira foto de "fantasmas"
Harry precisa salvar sua filha, mas, antes disso, tem coisas mais importantes a fazer.
Quando eu joguei Shattered Memories pela primeira vez, logo depois de seu lançamento, ele me surpreendeu bastante. Foi um jogo que ousou, propôs algo a mais, quando a série vinha acumulando fracassos, sendo representada por títulos pouco inspirados, sem qualquer criatividade. Levando isso em consideração, Memories se torna ainda mais interessante. Eu realmente o acho incrível, cheio de ótimos momentos e ideias interessantes. Por todos esses motivos, reafirmo o que disse no primeiro parágrafo da review: é um dos melhores jogos da série, um sopro de vida onde todas as boas ideias pareciam já ter secado. 
"It's a boat. It's like a car, but goes on water".
Então, é isso. Primeiro de tudo, jogue Shattered Memories pelo que ele é, da forma como foi concebido. Ele é um jogo brilhante. Nem pense em ficar comparando com game de 1999. São obras diferentes, não as confunda. Pode não o ser em estrutura, mas sem dúvidas é um Silent Hill em alma. O terror pode ser fraco, mas compensa com uma trama excelente, de ótimo elenco. Apesar de grande parte delas serem superficiais, as novidades quanto à mecânica também são um convite para quem ainda não o jogou, correr atrás e jogá-lo já. 

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  1. Sim, é realmente um game incrível. Uma coisa que amo muito na saga é todo o drama, o sofrimento e a tristeza, mas também esperança e fé que ela tem. Não é só terror, vai muito mais além, na verdade. Não é à toa que o 2 mesmo é tão prestigiado. Ótima análise, Delacroix!

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