Escrito por: Delacroix

Origem para quê?


Eu não vou recitar aquele discurso sobre os desenvolvedores japoneses, os responsáveis pela série até o quarto capítulo, serem blá, blá, blá... Os caras eram fodas e pronto. Mesmo sendo grande súdito da franquia (eterno amante de Silent Hill 2), deixarei de lado todos esses argumentos sobre os japas serem geneticamente superiores aos produtores ocidentais e... Existem mentes criativas por essas bandas do meridiano e elas seriam sim capazes de fazer um Silent Hill muito bom, a coisa é que a Konami entregou a fronte para pessoas erradas... repetidas vezes. Origins se enquadra em um desses casos. Foi o primeiro jogo concebido por um estúdio ocidental (Climax Group), lançado inicialmente para PSP, em 2007 e, um ano depois, para o Playstation 2.

Porque, hey, se Alessa queimou o rosto todo, como ele está novinho em folha no primeiro jogo?
O maior problema de Silent Hill Origins é a falta de autenticidade. É um jogo sem motivo para existir. Complemento de um título que não precisava ser complementado, completo o bastante para que qualquer “prequela” fosse necessária. Essa é a palavra que define Origins: desnecessário. O ponto aqui é que todos os pilares da trama são sustentados pela obra original, de 1999. A narrativa recorre, sem sucesso, às principais questões do primeiro Silent Hill, como o incêndio, o culto religioso e todos os seus personagens, com exceção do protagonista. Ocorre que o projeto original destinava-se a um remake da obra-prima do Playstation, até que seus desenvolvedores decidiram - aí não possuo certeza do motivo - criar este “adorno” para o drama de Alessa. A premissa é insossa: Travis, um caminhoneiro, chega por acaso à cidade. Seu tormento começa depois que ele resgata uma garota já carbonizada, de uma casa em chamas (a melhor cena do jogo, aliás). A tal garota, claro, trata-se de Alessa Gillespie. A jornada de Travis acontece sete anos antes da busca de Harry por Cheryl. O enredo até tenta criar uma cadeia de tormentos para moldar um currículo para o protagonista, contudo, que ainda assim é pouco eficiente, incapaz de verter qualquer brilhantismo a Origins.

Segura aí, sis.
Butcher: porque copiar o primeiro SH não é suficiente. TSC TSC.
Nesse ponto, um paralelo com Silent Hill 3 se faz necessário. O terceiro jogo da série também se trata de um complemento (uma “sequela”, no caso), da primeira aventura. A diferença entre o jogo de Travis e Heather é que, apesar de eu não achar que possua um enredo fabuloso, o ato três acrescenta muito mais ao universo construído no drama de Harry do que Origins. Silent Hill 3 não necessariamente encontra um motivo para existir (porque eu realmente acho o primeiro título completo, nada mais sobre aquela história precisa, ou precisava, ser dita), mas se sustenta como algo próprio, possui seus próprios personagens, estabelece e amplia seu próprio panteão. Origins simplesmente reproduz. Na verdade, ele ainda consegue negativamente redesenhar certas coisas, como os personagens, criando furos que tornam sua existência ainda mais duvidosa. Pior ainda é perceber que o jogo cultiva, dentro e para si próprio, vários buracos.  Não fosse tamanho o crime de ser descartável, é também inconsistente. Há alguns pontos na trama que não são difíceis de se entender por serem complexos, como de praxe na série, mas sim por serem falhos, mal apresentados; a situação final talvez seja o maior exemplo disso.

Alessa, a pivetinha endiabrada.
De boa aqui, xeretando...
O jogo foi lançado originalmente para PSP. No portátil, ele é tecnicamente competente: o visual é ótimo, com efeitos de iluminação primorosos e designs de personagens e cenários bem detalhados. No Playstation 2, no entanto, o visual não é mais que mediano, quase que apenas um esticar de tamanho da tela. Como padrão na série, a trilha sonora é excepcional, desde as faixas cantadas até as composições do ambiente. O saldo dos controles também é positivo, o funcionamento de Origins segue os mesmos contornos dos títulos anteriores. As únicas novidades são a possibilidade de Travis socar os monstros que encontra (!), quick-times e a gama de objetos espalhados por aí que podem ser usados como armas. Particularmente, considero babaca lançar torradeiras e tijolos contra os inimigos.  Contudo, a mecânica funciona - todas as armas quebram - mesmo que a diversidade desses itens seja exagerada. Outra coisa que me incomoda: Travis é, sem sombra de dúvidas, uma velha de noventa anos disfarçada de caminhoneiro: o cara se cansa praticamente a cada dois passos! Os chefes são bacanas (há inclusive um clone de Pyramid Head), a exploração é completa e os puzzles, relativamente fáceis, continuam sem sentido (do tipo encaixar vários órgãos em um boneco para que, só assim, ele abra seus olhos e você possa coletá-los e encaixá-los numa porta; Cristo!).
Numa referência clara à segunda aventura de Alice, Travis atravessa espelhos.
A atmosfera cumpre bem sua função, os cenários são claustrofóbicos e escuros (quando você não está explorando a cidade, obviamente) e os monstros também fazem o que devem fazer (apesar do elenco de wargs e mastodontes que circula pela cidade). O som, no entanto, é o maior benfeitor do quesito. O Otherworld é, na maior parte do tempo, uma cópia daquele encontrado no primeiro jogo. Neste capítulo, contudo, Travis pode “viajar” de um mundo para outro, atravessando espelhos. Isso adiciona um pouco mais de estratégia (burocracia) à coisa: algumas portas inexplicavelmente estão abertas em um mundo, mas não no outro. Eu imagino que, assim como várias coisas da trama, os desenvolvedores não pensaram que isso devesse fazer qualquer sentido.
Mas, caramba, comeu o fermento todo?
Veja só:  Origins não é isento de bons momentos. Ou , como um jogo, ruim. A parte técnica dele, por exemplo, cumpre muito bem o seu papel. O terror funciona e, de modo geral, ele é estruturado de acordo com o padrão da série. Mas erra onde não deveria, quando recicla, reproduz o que já havia sido feito. Não ousa, não estabelece seus próprios padrões. A Climax se contentou em criar algo que não encontra motivo para existir. Repito: um complemento para uma obra completa. E mais que isso, é por vezes inconsistente. E um jogo que se perde em si mesmo.  

O ponto a ser percebido, portanto, é que Origins apesar de ser um bom jogo, é igualmente superficial. Jogue-o sem esperar por novidades relevantes. Quer saber? Jogue-o como um jogo a parte, exclua-o do cânone da série e divirta-se esmurrando todas as coisas feias que surgirem no seu caminho. 


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  1. Eu acho que você está melhorando cada vez mais esses teus textos. Muito bom!

    Particularmente, eu odeio o Origins justamente por não ser necessário e por ser chato. Detestei os sons ambiente e o personagem em si. Travis é um personagem muito vazio (consegue ser mais vazio que o Henry) e, não sei, não fui com a cara desse jogo. É um dos SH que eu mais odeio!

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  2. Bem eu gostei bastante do ORIGINS porem a ultima frase dele resume tudo e é otimo! " Quer saber? Jogue-o como um jogo a parte, exclua-o do cânone da série e divirta-se esmurrando todas as coisas feias surgirem no seu caminho. " De fato o jogo para a historia original é irrelevante em tudo praticamente mas se você for jogar ele fazendo dele um "SPIN-OFF" ai sim eu acho que compensa bastante.

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  3. Pra mim o jogo é ótimo muito melhor do que os da geração atual

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  4. Eu gostei do game, mas concordo pelo menos em grande parte, com a análise. E pra mim, o 4 foi o mais legal e gostava muito do Henry, só pra comentar com o que a Morte escreveu, hahaha!!!

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