Escrito por: Fernanda Turesso

Aqui no blog falamos bastante de jogos de RPG Maker. Mas normalmente não entramos muito a fundo ou não falamos nada sobre seus personagens. Então, hoje vim trazer a história completa do jogo "The Witch's House". Famoso no mundo dos RPG Makers, já passou aqui pelo blog num post da Claudia (Witch's House Review) e se tornou o meu jogo preferido dessa engine. 

O jogo contém uma história bastante depressiva e violenta. Conta a história de uma menina chamada Viola que encontra um gato preto falante e a lidera para a casa da bruxa, que se encontrava no meio da floresta. Tudo dentro daquela casa faz com que ela tenha que cuidar de sua vida, já que existem muitas armadilhas. E a história você vai descobrindo pelos diários da bruxa.


Já a novela escrita por Fummy - mesmo criador do jogo - está sendo lançado na internet com cinco capítulos no total. Mas a novela pode ser comprada na Amazon japonesa. Além de conter uma linda capa desenhada pelo Oguchi, está no valor de R$23 reais (ou ¥ 1.050 )! Infelizmente o livro se encontra apenas em japonês!
Eu incentivo ao pessoal a comprar o livro, já que é um feito bastante bom para um simples jogo que saiu de um RPG Maker. Deem créditos para o trabalho de Fummy!

Mas para quem não sabe japonês e não tem dinheiro agora, colocarei todos os capítulos aqui no blog e traduzidos em português!

Espero que gostem e boa leitura!




Prólogo 

Ouvi um som sibilante. Estava por perto e, eu ouvia aquilo toda vez que meu peito arfava. 
Eu sabia que aquilo não era o vento, mas um som vindo de mim. 
Esta sala é tão fria, tão escura. Ah, não havia deitado nesse chão frio do mesmo jeito de antes? Fechei os olhos com esse pensamento. Lágrimas, sangue, eu não sei qual escorreu pelo meu rosto.
Um vento forte soprou pela janela. 
Eu ouvi as páginas de um diário sobre a mesa. 
Era meu diário.
Um livro com encadernações vermelhas e que tinha tudo sobre mim escrito nele. Eu poderia me lembrar de tudo tão facilmente, como se tivesse acontecido ontem. 

Embora eu nunca tenha escrito nada nele, eu sabia o que foi escrito naquele diário. 

Capítulo 1 - O Encontro no Beco 


Parte 1


Eu estava doente, por isso ninguém queria brincar comigo. 

Eu vi um gato preto pegar um rato. 
Aconteceu tudo num instante. Tudo o que eu vi foi uma sombra escura saltando, e antes que eu percebesse, havia um gato preto com um rato na boca.
O rato nem sequer se mexia - talvez o gato o tenha atingido em seus pontos vitais. 
Como se percebesse meu olhar, o gato veio em minha direção. 
Seus grandes olhos dourados estavam bem abertos. 
Apenas momentos depois, o gato desapareceu para dentro de um beco. 

Deixei escapar um grande suspiro. Como foi lindo. A imagem daquele gato preto foi sumindo da minha vista.
Tal corpo ágil e com olhos iguais à luas cheias. Dourados como os meus, era a verdade. Mas eu não tinha dentes como os dele. E eu não tinha a mesma liberdade. 

Eu me esparramei na minha cama suja e olhei para fora. Tudo o que eu podia fazer todos os dias era olhar pela janela do beco. 
Por que? Você pergunta.
Porque fazer isso foi o meu modo de vida, e meu dever. 
As pessoas que passam não me notam. E se o fizessem, elas fingiriam não notar uma garota pálida olhando para elas. 
As pessoas faziam careta como se estivessem olhando para algum tabu, e rapidamente partiam. 

Naturalmente, esse lugar era a favela. 
Todo mundo estava focando em suas vidas, incapazes de poupar o tempo para dar aos outros uma ajuda.

"Ellen?"
Minha mãe suavemente chamou meu nome, me devolvendo à realidade. 
"Você viu alguma coisa?", ela perguntou, colocando um balde de água no chão. 
Talvez ela tenha notado como eu olhava para fora, com mais de um brilho nos meus olhos do que o habitual. 
Eu balancei a cabeça um pouco e abri minha boca. 

"Um gato..."
Uma voz gasta, mais do que esperado, saiu. 
Tossi um pouco, e depois continuei. 
"Eu vi um gato preto pegar um rato."
"Ah", ela sorriu. Seu cabelo castanho claro, levemente ressecado, oscilou acima de sua clavícula. 
Ela mergulhou um pano no balde com água e o torceu. Ela cuidadosamente dobrou e em seguida colocou uma das mãos sobre o cobertor. 
"Eu vou fazer suas bandagens."
Assim que eu balancei a cabeça, ela puxou o cobertor até meus joelhos. 

Tinham esparadrapos colados em ambas as minhas panturrilhas. Haviam manchas tênues de vermelho em alguns lugares. 
Quando ela tirou as bandagens, a pele rachada descolorida se tornou enormemente vermelha. Minha mãe começou a limpá-la com mãos de especialista. 
Tentei falar com rapidez, como o gato havia pego o rato elegantemente. Mas como eram coisas simples, ela correu do quarto para fazer outras coisas. 
Enquanto eu me calava, mamãe terminava de fazer os curativos e puxava o cobertor de volta. Ela olhou para minha cabeça e, como se só agora percebesse, disse: "Oh, sua fita se soltou."

Ela estendeu a mão para pegá-la. Não que eu soubesse, se ela estava realmente caindo. 
Ela sorriu e fez um gesto para eu olhar para o outro lado. Eu agradeci, virando meu corpo em direção à janela. 
Ela desamarrou minha fita vermelha e começou a pentear meus cabelos compridos e roxos. Com cuidado, para que não tocasse nas bandagens de meu rosto. 
Eu sabia que não podia mover nenhum músculo. Esperei ela terminar de pentear meus cabelos até a cintura, de cima para baixo. 
Era quase como se ela estivesse cuidando de uma boneca. 

Toda vez que seus braços se moviam, um aroma doce enchia meu nariz. 
Minha mãe sempre carregava um aroma como os de doces confeitos. Eu esperava, porque era seu trabalho fazer essas coisas. 
Ela sempre substituiu minhas ataduras durante a noite. O que era mais ou menos o horário em que ela voltava para casa. Eu gostava da combinação de seu doce cheiro e o ar ligeiramente frio que nos faz sentir com o pôr do sol. 
O tempo passou lentamente.
Fechei os olhos confortavelmente. 

Só então mamãe sussurrou.
"Me desculpe, eu não posso deixar você brincar lá fora."

Meus olhos se abriram. 
Uma pequena corrente elétrica passou pela minha cabeça. Era uma espécie de sinal, me avisando do perigo, que me tornara imóvel. 
Eu tinha que escolher as palavras certas num momento como este. As engrenagens em minha cabeça rodavam para encontrar uma resposta. Tudo isso em apenas um instante. 
Eu respondi o mais contente que pude.
"Está tudo bem. Gosto de brincar dentro de casa, sabe?", eu disse, olhando para minha mãe. 
Ela sorriu e meu cabelo estava perfeitamente penteado, como se nada tivesse acontecido. Uma vez que eu tivesse confirmado seu sorriso eu, desajeitamente, reproduzi um sorriso em meus lábios. 

Eu nasci doente. 
Mas isso não quer dizer que eu sempre fui confinada neste quarto escuro. Eu não podia ver o céu desta janela, mas eu sabia que era azul e lá fora tinha cheiro de grama. Quando eu era jovem, eu tinha brincado lá fora. 
Desde meu nascimento, a pele de meu rosto e das pernas estavam constantemente inflamadas. Havia algo de errado com minhas articulações, por isso tudo doía quando eu andava. 
Ninguém sabia o porquê. Muito menos como curar. Não haviam médicos decentes por aqui, muito menos dinheiro para gastar.

Lembrei-me do que a cartomante nos disse. 
"A doença dessa menina é a culpa da transgressão de seus antepassados. Ela vai sofrer por toda a eternidade."
Minha mãe gritou alguma coisa e me levou pela mão para fora da casa da cartomante. Andamos pelos becos, seu rosto estava tão pálido que parecia que ela estava prestes a desmaiar. 
Em última análise, tudo que mamãe poderia fazer por mim era proteger minha pele com ataduras e me dar remédios. 

Eu não sabia o que significava. Na época, eu era apenas uma criança, que só queria brincar lá fora. Havia dor em minhas pernas, mas não o suficiente para que eu não pudesse andar. Minha mãe me permitia sair e brincar como eu queria. 
Eu poderia esconder as bandagens debaixo de minha saia, mas não as de meu rosto. Toda vez que eu me movia ou arranhava meu rosto, a pele podre, como minhocas esmagadas, era fácil de serem machucadas e de ver as lacunas debaixo das bandagens. 
As crianças da minha idade me achavam repulsiva. Não era uma doença contagiosa, mas os pais tinham medo de mim e não deixavam seus filhos por perto.
Alguns poderiam me ver e sussurrar à distância. Fingia ignorância e brincava sozinha, chorando um pouco. No entanto, ainda era melhor do que estar num quarto sombrio. 

Quando eu me cansava de brincar, eu voltava para casa. 
Eu deitava, deixando minhas roupas sujas e curativos como estavam, e esperava minha mãe retornar. 
Um dia, ela voltou do trabalho, como de costume. "Você se divertiu?", ela perguntou pegando minhas roupas sujas.
Eu vi a mão dela.
Eu não sei por que, mas eu estava com mal-estar, e todos os poros de meu corpo pareciam suar frio. 

...As mãos de mamãe sempre foram tão fortes?
Eu não podia abrir a boca para perguntar. Só de imaginar perguntando fazia minhas pernas doerem. Eu senti que tinha ouvido um sussurro - "A culpa é sua.", eu tremi. 
Eu não poderia dizer definitivamente como era a aspereza de suas mãos dando atendimento à mim. Mas não havia dúvida de que tinha um efeito sobre sua vida. 
Nesse ritmo, minha mãe, certamente algum dia iria me abandonar. 
Esse foi meu palpite. 
Você só pode ser gentil com as pessoas quando você se pode dar ao luxo. 
Minha mãe não disse nada. E, no entanto, sem palavras, eu vi seus lábios firmemente franzidos me culpando, e ela estava assustada. 

Não. Eu não quero ser abandonada.
Isso gritou por todo o meu corpo.
Eu acreditei nesse sinais quando eles começaram a rodar em minha cabeça. 
Começando o dia seguinte, eu parei de ir brincar lá fora. Eu só, obedientemente, esperava em minha cama a volta de minha mãe. Eu comecei a sentir coceiras, mas evitei de me coçar. Eu deixava o mínimo de trabalho para ela. 
Ela achou estranho ver-me fazer isso, mas só no início. Em pouco tempo, ela parou de dar bola. 
Na verdade, ela parecia tornar-se mais amável do que o habitual. Talvez fosse minha imaginação, mas não importava. Eu estava com mais medo de perder o amor de minha mãe do que perder a liberdade de brincar lá fora. 

No momento em que eu fiz sete anos, eu já era prisioneira. 
Eu tinha escolhido esse caminho insensato. Presa pelas correntes em forma de ataduras, dado apenas ao alimento do amor de minha mãe. 

"Lá vamos nós..."
Mamãe estava ajustando minha fita de cabelo e me mostrou com um espelho na mão. 
Eu vi o reflexo de uma garota magra, com um rosto envolto em bandagens. O cabelo roxo decorado com uma fita vermelha. Ao meu lado, uma mulher de cabelos castanhos claros calmamente sorrindo. 
Ela me abraçou por trás e, suavemente, virou o meu corpo como um berço. 
"Minha querida Ellen..."
Fui colocada à vontade do doce aroma de minha mãe. Agarrei seus braços finos e fechei os olhos. 

Minha mãe, que me amava. 
Eu a amava também. 
Ser abandonada pela minha mãe seria o mesmo que a morte.
Porque ela era a única pessoa que me amava.
Se ela não estava sorrindo, eu não poderia sorrir também. Se ela não estava me amando, eu não poderia respirar. 
Como tal fracote desesperada para ter onde me segurar, eu me agarrei ao amor de minha mãe. 

Porque nesse lugar eram as favelas.
Assim como todo o mundo que estava desesperado para viver, eu estava desesperada para ter o seu amor. 

"...Droga! Você tem que estar brincando comigo!"
O som da porta da frente se abriu violentamente, me informando que meu pai havia voltado para casa.
Eu e mamãe ficamos surpresas. Ou melhor, foi ela que imediatamente saiu. 
Ela segurou minha mão, e o ligeiro tremor de suas mãos me mostraram seu nervosismo. 

A casa era pequena, de modo que a porta da frente e onde eu dormia eram quase grudadas. Havia uma grande mesa no meio da sala e papai sentou e bateu uma garrafa que levava consigo. 
Eu não sabia que tipo de trabalho meu pai tinha. Lembro-me de que ele chegava em casa mais tarde do que mamãe. 
Seu cabelo curto e roupas surradas eram sempre sujas de óleo e terra. 
"Vou ter que fazer outro empréstimo..."
Ele murmurou alguma coisa. Eu sabia que ele não estava falando consigo mesmo, mas dirigindo-se para mamãe.

Ela falou para ele interrogativamente.
"E sobre a união?"
Meu pai apenas balançou a cabeça.
"Não vai acontecer, eles não vão falar e eles sabiam que não temos para onde ir, por isso... Droga!"
Como se irritado com sua memória, ele chutou um balde que estava por perto. 
Mamãe apertou minha mão com força. 

O tempo passou esquisito. O tick-tack do relógio ecoou pela sala. 
Meu pai deixou escapar um grande suspiro, e seu olhar vagou pelo local. Ele olhou para minha mãe e virou-se para mim. 
Eu estava assustada, e abri minha boca para dizer alguma coisa. Mas, em um momento, ele olhou para o lado com aborrecimento, tomando um gole de sua bebida que estava na garrafa. 
Meu coração afundou. 
Era sempre assim.

Meu pai nunca disse o meu nome. 
Ele apenas falava o de minha mãe. 

Por fim, ele se levantou da cadeira e se aproximou. 
Seu alvo não era eu, e sim minha mãe. 
Ele puxou ela pela mão. Minha mão e a dela foram separadas como se fossemos amantes dilacerados. 
Meu pai a arrastou para o quarto - o único outro quarto - e fechou a porta. Depois, ouvi o som de uma chave. 
E então eu fui deixada sozinha. 
Eu ouvi um clamor através das paredes. Os ruídos ficaram quietos, depois mudaram para vozes conversando.

Esta era a rotina. 
Eles sempre falavam que eu não podia vê-los. 
Eu não sabia o que eles faziam. Mas eu senti que era algo necessário para a relação entre amantes.
Certa vez perguntei para minha mãe quando ela saiu do quarto, "O que você estava fazendo?", ela riu preocupadamente. 
Nessas horas, eu podia sentir o cheiro de algo distinto do seu cheiro doce que ficava em torno de seu pescoço. Eu supunha que poderia ser o cheiro de meu pai. 

Enquanto eles conversavam, eu perdia tempo inutilmente olhando para fora e arrancando fora os rótulos dos frascos dos medicamentos. 
Eu queria dizer que eu tive um tempo de ar livre. 
Na verdade, eu estava sendo deixada para trás. Mas isso me fez triste por pensar nisso.

Quando eu fiquei entediada de arrancar os rótulos, peguei uma boneca velha que ficava debaixo de minha cama.
Era uma boneca de cabelos louros e compridos. Ela usava um vestido roxo e um chapéu, para não mencionar um sorriso assustador.
Mamãe tinha dado a mim dizendo: "Não haviam bonecas com o cabelo igual ao seu, Ellen. Mas as roupas são das mesma cor que seu cabelo!"
Eu aceitei, fingindo felicidade. Eu não ligo para qual cor fosse o cabelo da boneca.
Afinal de contas, eu não gostava do meu cabelo. 
Meu cabelo era o mesmo tom de meu pai. Mas eu teria gostado de ter eles castanhos claros igual de minha mãe. Talvez, então, se eu tivesse os cabelos como os dela, papai poderia gostar de mim.

Eu escovei o cabelo da boneca com a minha mão. Os fios dourados estava emaranhados, tornando-se difícil para meus dedos atravessarem.
Eu fiquei irritada. Eu enfiei meus dedos entre os fios e nós a força. E os olhos inorgânicos da boneca pareciam falar:
..."isso dói."
Cale a boca. Eles não podem te machucar. Você é uma boneca.
..."E você não é uma boneca de você mesma?"
Eu não era uma boneca. 
Eu neguei, do fundo do meu coração, mas me lembrei de como mamãe penteava meus cabelos. 
Eu estava perfeitamente imóvel, deixando-a fazer o que gostava. Eu apenas sentei esperando por ela para mover o pente de cima para baixo. 
Eu sou uma boneca?
..."Você é."
Errado.
Eu continuei a desfazer os nós.
Meus olhos não estava mortos como os dela. Meus olhos podem ver todos os tipos de coisas, todos os tipos de lugares. 
Heeheehee.
A boneca deu uma risadinha, o pescoço se virou em uma direção, e seu rosto estava o mesmo de sempre. 

..."Lugares como esse beco? E o que mais?"

Senti o sangue subir. 
Eu imediatamente joguei a boneca. Ela atingiu uma parede e caiu sobre uma pilha de roupas no chão.
Eu escondi minha cabeça debaixo das cobertas, sem querer ouvir mais nada.
Eu odiava ficar sozinha. Isso me fazia pensar muito. Isso me fazia ouvir muito. 
Eu rezei para que mamãe viesse logo, e fechei os olhos com força. Eu não estava com frio, mas meu corpo estremeceu. Pouco tempo depois, eu adormeci. 

Quando acordei, mamãe estava acariciando minha bochecha com a palma de sua mão. Sua expressão era oca, mas quando ela me viu, ela sorriu.
"Você está acordada?"
Eu silenciosamente assenti. 
Basta olhar para o rosto dela e me acalmar. 
"Eu vou lhe trazer um pouco de água."
Ela levantou-se da cadeira e foi até a pia. 
Parei para pensar um pouco, era hora do remédio.

Eu olhei para a janela. A noite estava vindo. Não deve ter se passado muito tempo desde que eu adormeci. Eu olhei para o nada, ainda sonolenta. 
Meus olhos casualmente seguiam minha mãe. 
Eu me pergunto, por quê? Pareceu-me que ela estava trabalhando não por minha causa, mas porque estava fugindo de alguma coisa. 
Mas de quê?
Eu a vi passar pela porta do outro quarto. Meu pai ainda estava no quarto, mas ele não iria arrastar minha mãe pela mão novamente.
Finalmente, mamãe voltou com um copo de água e um medicamento em pó. Eu lentamente me sentei na cama e tomei. 
Então, quando eu distraidamente olhei para o rosto de mamãe, fiquei surpresa.
Prendi a respiração, como se eu tivesse realizado um fato surpreendente. 

Minha mãe parecia incrivelmente bonita.

Não era a estrutura de seu rosto. Seu cabeço estava uma bagunça, e ela quase não usava maquiagem. Ela apenas sorriu debilmente. 
Mas o lábio inferior estava vermelho de ser mastigado demais, e aquele vermelho assentiu como se fosse a única cor neste quarto escuro. 
Seus cílios baixos, por vezes, balançavam com as lembranças. Seu olhar, a respiração, as mãos postas, todos eles pareciam ter significado.

Esta mulher está viva, eu sentia. 

Eu engoli o medicamento. Mas não sentia o gosto amargo. Meu estômago estava há muito tempo acostumado com as amarguras.
No entanto, a água do fundo do meu estômago ficou se contorcendo como uma cobra, e tentou fugir pela minha garganta. 

"...Mãe!"
Eu ia gritar, tentando chamá-la. 
Minha voz tremeu. Eu estava prestes a chorar a qualquer momento.
Como minha mãe deve ter visto, eu era uma criança preocupada com ela. Ela segurou minha mão gentilmente e me abraçou. 
Incapaz de expressar os sentimentos que eu tinha acabado de concretizar, eu desesperadamente agarrei-me ao seu corpo. 
Eu era incapaz de expressá-las? Eu não sei porque eu pensei assim. Para ser exato, eu queria fingir que eu não podia. 

Mesmo envolta no aroma de mamãe, a escuridão em meu peito não foi embora. Na verdade, ela só parecia se aprofundar. 
Eu estava perturbada por este sentimento que eu nunca havia sentido antes. 
Essa coisa nascia em meu peito.

Era ódio.

Eu detestava. Minha mãe, que me fez sentir que ela estava viva. Minha mãe, que continuo a aceitar o amor de um pai que não daria nenhum amor para mim.
Eu estava confusa e sentia uma emoção brutal.
Como eu poderia odiar minha mãe, que foi tão gentil e adorável? Eu me repreendi severamente. 
Para acabar com os pensamentos amargos, eu me agarrei mais apertada em seus braços.

Mesmo se minha mãe fosse a única que parecia ter cor, isso seria bom. 
Quando ela me abraçasse assim, ela estava me colorindo também. 
Eu sou Ellen. Amada filha. Eu não precisava de nada disso.

Eu tentava desesperadamente me convencer. 
E ainda assim, o ódio enrolado em minha perna, tentando me arrastar para as profundezas do mar. 
Ele ainda veio até meus ouvidos para sussurrar, de modo que eu notasse. 

"Realmente?"

Eu resisti à vontade de gritar, e pressionei meu rosto contra o peito de minha mãe. 


Parte 2



Havia algo de errado naquela tarde. 
Eu vi um vulto no comum beco. Parecia um pedaço de pano preto, ou algo pintado de preto.
Eu tive um mal pressentimento.

No fundo de minha mente veio uma imagem do belo gato que pegou o rato.
Talvez fosse o cadáver dele.
Não consegui ver nada além de um gato, e mesmo assim eu fui incapaz de me acalmar. 
Encontrá-lo seria insuportável, então eu saí da cama. Colocar todo o meu peso sobre as minhas pernas me fez encolher de dor. A dor nelas subiu à minha cabeça e as lágrimas se formaram em meus olhos.
Doeu. Mas não era o suficiente para me impedir de andar.
Apoiando-me numa cadeira próxima, eu cambaleei com meus pés.
Dei uma olhada ao redor da sala, mas meus sapatos estavam longe de minha visão. 
Eles deviam ter sido postos de lado. Mamãe pensou que eu nunca mais iria embora depois de tudo. Eu queria isso para mim mesma, mas isso ainda me deixava um pouco triste. 

Saí descalça. 
O sol brilhava sobre mim, quase diretamente acima. Os raios luminosos machucavam meus olhos. 
Passei minhas mãos ao longo das paredes da casa, e continuei pelo beco. 
Eu vi o vulto negro mais uma vez. Quando me aproximei, ele se tornou cada vez mais evidente. 
Como eu pensei, era o cadáver do gato preto.
O gato estava deitado de lado na calçada. Um de seus olhos tinham saltado para fora como um pote virado, e seu crânio estava rachado e sangrento. 

Parei a poucos passos do gato, repugnada. 
Olhei para ele, estupefata pela diferença de quando o vi pela primeira vez. Eu não podia correr, mas também não poderia ficar ali. 
Lembrei-me da vista deslumbrante que fora sua captura ao rato.
Por que isso foi acontecer?
Ele foi atropelado por uma carroça? Ou ele bateu em algum lugar alto e caiu?
Como pode uma criatura tão animada ser reduzida a esse estado horrível?
Fiquei triste.
Eu não odiava o que ou quem tivesse feito isso com ele. Foi nesta cidade que se obrigaram a aceitar que essas coisas acontecessem, e isso eu odiava. 

Eu ouvi um corvo acima de mim. Eu olhei para cima e vi que em uma cerca alta ele estendia suas asas. Ele ficaria ali para comer a carne do gato. 
...Você acha que vou deixar você?
Aproximei-me do gato preto. Eu senti que não podia deixá-lo assim. Eu o levantei em ambos os braços, para protegê-lo. 
Ele era iluminado. E duro. O corpo do gato tinha endurecido na mesma posição em que o vi no chão.
O globo ocular saindo tornou quase comicamente evidente que ele não iria viver mais, e quando eu o toquei... Era como se ele fosse uma coisa. Um objeto. Foi então que eu aprendi que quando as criaturas morrem, se tornam meros objetos. 

Finalmente entrei no parque. 
Havia uma grande árvore no centro. Suas folhas eram verdes e cheias de vida. Eu me senti totalmente deslocada nessa cidade. 
Não havia nenhum brinquedo ou equipamento para que pudesse ser chamado de parque, existia apenas uma extensão vazia, a árvore e um banco. 
Uma velha vestida em trapos se sentou no banco, brincando com sua bolsa. Quando ela me viu, ela deu uma olhada e então, desinteressadamente olhou para sua bolsa. 
Fui para baixo das sombras da árvore. O solo se estendia em sua base e a rodeava. 
Parecia ser um canteiro de flores. Mas a flores estavam murchas e ali cheirava a lixo podre. Obviamente não era um lugar cuidado. 
Encontrei um lugar onde nada parecia ter sido enterrado e me agachei.
Eu coloquei o gato no chão e cavei.
O solo era surpreendentemente suave. Ele tinha um toque fresco e agradável. Eu cavei como se eu fosse uma toupeira.

Meus braços estavam livres.
Meus braços estavam livres.
Eles mostraram alguns sintomas da doença. Eu estava grata, pois eu podia movê-los livremente. 
O suor escorria sobre minhas ataduras, fazendo-as escorregarem. Eu esfreguei meu nariz, ficando sujo meu rosto. E limpei mais ou menos com a manga, desarrumando todas as bandagens. 
Quando o suor tocou a pele inflamada, senti uma pontada. Eu cerrei os dentes e suportei a dor, continuando a cavar.

Uma vez que eu cavei um buraco suficientemente profundo, suspirei.
Eu coloquei o gato preto dentro e cuidadosamente enchi o buraco novamente. 
Finalmente, juntei minhas mãos e fechei os olhos. Eu não sabia o significado disso, mas eu sabia que você deveria fazer este gesto pelos mortos... "coisas".
Eu não ouvi os grasnar do corvo mais. 

Levantei-me para ir para casa. Em questão de segundos, eu não podia andar de tontura. 
Eu pisquei com força e consegui recomeçar a andar.
Fiquei impressionada com o cansaço súbito que me deu ao sair da sombra da árvore. Eu me senti como se tivesse passado o dia todo ali. No entanto, o sol ainda estava alto no céu, ainda queimando o asfalto atrás de mim.
Meu corpo inteiro doía, mas fiquei muito satisfeita. 
...Agora, o gato preto poderia voltar para a terra. 
Claro, acho que não era assim que ele queria retornar à terra. Foi o meu próprio egoísmo. Eu não queria vê-lo, uma vez que a criatura viva estava deitada em um beco frio, sendo bicado por corvos e pisado pelas pessoas. 

Enquanto eu caminhava, em minha boca se formava um leve sorriso, eu passei por uma mulher de meia-idade que me olhou esquisito.
Endireitei meus lábios rapidamente. Mas pensando nisso, ela não estava se questionando quanto a minha expressão, mas a minha aparência.
Eu parei e olhei-me mais.
Minhas ataduras estavam desgastadas, minhas roupas cobertas de manchas estranhas, misturas de sangue e sujeira. Ambas as mãos eram negras. Eu parecia uma criança que tinha escapado de algum hospital e se jogado na lama.

O que mamãe diria?
Eu tremi imaginando.
Corri para casa.
De repente, parecia uma distância tão longa. 
Eu tinha que chegar em casa antes de mamãe. Eu teria que trocar de roupa, lavar as mãos e os pés e mudar minhas ataduras. Eu tinha que ser uma criança que não desse trabalho.
Eu tinha esquecido completamente que eu era uma prisioneira. Para ter o amor de minha mãe, eu tinha escolhido me tornar uma criatura eternamente presa à cama. 
Como eu poderia ter esquecido isso? Eu estava suando frio.

Finalmente cheguei em casa.
Havia tempo de sobra antes do pôr-do-sol. Eu abri a porta da frente me sentindo aliviada, então, paralisei. 
Eu senti como se tivesse ouvido o som do sol da tarde se congelando. 

Mamãe estava ali. 
Ela estava sentada em uma cadeira, olhando para o nada. 

Eu imediatamente olhei para o relógio. 
Não era hora de ela estar em casa. Por quê?
De repente, senti o cheiro de algo doce. Havia uma cesta com pastéis em cima da mesa. 
Isso mesmo. De vez em quando, muito raramente, mamãe saia do trabalho mais cedo e levava alguns pastéis para casa.
Mas... Por que isso tinha que ser hoje?

Percebendo a porta aberta alguns segundos depois, ela lentamente olhou para mim. 
Demorou algum tempo antes que seus lábios se abrissem para falar.
"Ellen... Onde você foi?"
Eu não havia visto seu olhar amargo no rosto há um longo tempo. Algo frio percorreu minha espinha.
"Eu e-e... enterrando um gato."
"Um gato?" ela levantou uma sobrancelha. 
Não. Não, não olhe para mim assim. 
Eu resisti à vontade de chorar e tentei sorrir desesperadamente. 
"Sim, um gato preto morreu... Então eu fui enterrá-lo... Eu-eu estou tão triste. Para ir para fora. M-mas, eu... Eu não posso andar. Dói, mas eu posso suportar. Posso andar por minha conta, assim, para que eu possa fazer um monte de coisas sozinha..."

Eu me desesperei enquanto falava.
Porque mamãe apenas olhava para mim com a mesma expressão.
Olhos vazios. O olhar fixo. Ela estava olhando para minhas roupas enlameadas. Meus dedos sujos de terra. Minhas pernas sangrentas.
Mamãe olhou para mim como... Não como Ellen, mas como uma criança doente que só a faria perder tempo.
Eu percebi que eu tinha feito algo que não tinha volta.
Mas, mesmo sabendo de seu humor, eu desesperadamente me perdi em palavras. Os sinais continuando a voar na minha cabeça. Próxima palavra. Próxima palavra. Certifique-se de escolher a palavra certa. 
Mas eu sabia que nenhuma delas teria qualquer efeito. E ainda a minha boca não parava de se mover.

Mamãe me amava. 
Mas esse amor foi mantido à tona por um equilíbrio delicado. Uma casa sem nada a oferecer, medicamentos caros, o esforço de substituir ataduras.
Eu tinha acabado de destruir esse equilíbrio.
Amaldiçoei aquele gato preto.
Nenhum respeito pelos mortos podia parar meu ódio.
Por que você teve que morrer hoje? Por que você tinha que morrer onde eu poderia vê-lo?
Foi, sem dúvida, eu, que queria enterrá-lo. E meu cérebro tolo não queria pôr a culpa em outra coisa. 

Por fim, mamãe levantou-se da cadeira. Ela preparou um balde de água e começou a lavar as mãos. 
Ela não era rude. No mínimo, era meticulosa como sempre.
Eu olhei para ela, em desespero. Ela estava sorrindo.
Mas eu não vi nenhum traço da mãe que tinha dito que me amava. 
Os sinais continuaram a soar em minha cabeça. Mas, como um relógio quebrado que só pode girar com ajuda, eu ficaria sem nada no final.

Eu percebi que eu tinha feito algo que não havia volta. 
E como que para provar imediatamente a validade desse palpite, mamãe parou de voltar para casa.

Parte 3



O pai era o mais perturbado pela ausência de minha mãe.

Alguém do trabalho de mamãe apareceu em casa, e meu pai apenas gritou e chorou, recusando-se a falar. O colega de trabalho tentou acalmar papai, em seguida, foi embora. 
Papai, jogado no chão em lágrimas, como se orando a Deus, parecia que não iria nem me dar a chance de me lamentar. 
Seu desaparecimento tinha sido repentino.
Ela não deixou nenhuma carta, não disse nada, deixou todos os seus pertences. Ela não demorou mais que um grampo de cabelo que se perdia em casa.
Eu não estava "triste", mas sim, parte do meu corpo foi consumido por uma sensação de vazio. 
...Certamente, podia chamar esse sentimento de desespero.
Minha garganta estava seca e eu não conseguia dormir. Eu não tinha energia para me levantar ou comer. 

Mas como isso continuou por dois ou três dias, eu considerei algo.
Talvez mamãe estivesse um pouca cansada.
Talvez ela só precisasse de um tempo em sua vida desgastante comigo.
Uma vez que ela tivesse seu descanso, ela voltaria para casa ao se lembrar de sua filha e seu marido que abandonou.

Afinal, eu era sua querida Ellen. Porque com certeza, eu era muito preciosa para ser deixada para trás.
Essa ideia fraca gradualmente se tornou uma convicção, me acalmando. Imaginando que mamãe voltaria para casa e eu poderia dormir em paz. 
Claro que ela iria voltar. Ela iria se arrepender de ter ido, pediria desculpas e me abraçaria. E envolta em seu aroma, eu sorriria e a perdoaria. 

Isso mesmo.
Eu afastei o cobertor da cama e sai.
Para isso, eu teria que ser uma criança auto-suficiente.
Por vários dias, eu troquei meus próprios curativos, afinal, eu tinha sido deixada para fazer isso sozinha.
Eu mesma suportei a dor de minhas pernas ao passar água. Copiando o que eu tinha visto, eu preparei minhas próprias refeições. 
Imaginei que eu seria a melhor criança que uma mãe poderia querer e ela me aceitaria, já que comecei a desempenhar esse novo papel. 

Embora papai e eu vivêssemos juntos, nós ainda não nos falamos muito. Ele falava com objetos, mas nunca comigo. Talvez ele achou esquisito eu não chorar e levar toda a situação calmamente. 
Talvez eu devesse ter chorado como uma criança e dissesse coisas egoístas. 
Mas eu não podia fazer isso, então... 
Eu estava tentando melhorar a situação com meu pai, mas eu não queria quebrar o silêncio sozinha. Eu fui incapaz, pelo medo, de que se eu usasse as lágrimas para ter sua atenção, eu poderia ser cada vez mais ignorada. 
Depois de já ter feito o meu erro, eu estava terrivelmente fechada. 

Meu pai estava constantemente em casa. Talvez ele tivesse sido demitido. 
Logo, um homem que eu não conhecia veio visitá-lo.
Papai recebeu algo do homem e pagou-lhe em dinheiro. Uma vez que ele tinha aquilo na mão, ele parecia inquieto e foi para seu quarto, não saindo de lá por um tempo. 
Isso continuou acontecendo e papai continuou a sair cada vez menos de seu quarto.
O cheiro doce exalando do outro quarto parecia ficar mais forte a cada dia. 

Eu sinceramente esperava pelo retorno de minha mãe. 
Adormeci ao imaginá-la voltando para casa e acordei rezando para que ela estivesse acariciando meu rosto.
Às vezes, eu acordava pensando que ela estaria lá, mas era apenas o vento no meu rosto. 
A boneca que eu tinha jogado contra a parede inclinou a cabeça e olhou para mim.
Senti um calafrio. Antes que eu pudesse ouvi-la rir, eu mergulhei debaixo das cobertas e cobri meus ouvidos. 

Depois que eu comecei a passar água em minhas pernas, elas pareceram piorar. 
Minhas mãos se tornaram ásperas como as de mamãe. 
Eu não era capaz de amarrar meu cabelo muito bem. 
Nós só tínhamos algumas ataduras e medicamentos deixados.


...Eventualmente, papai parou de sair de seu quarto. 

Parte 4


Foi na calada da noite.
Acordei sentindo sede.
Fui para a pia com o andar instável. Olhei para a lua que mandava fracamente seus raios luminosos pela janela. Meu quarto era de um branco pálido. 
Tremendo de frio, eu abri a torneira e peguei a água com as mãos, e bebi. 

Pensando que eu deveria pegar algumas ataduras enquanto eu estava por ali, fui e abri a gaveta da cômoda. Fiquei surpresa com a leveza dela e descobri que haviam apenas dois ou três rolos. 
Na verdade, o remédio que eu tomei esta manhã foi o último também. 
"Se você não tomar isso, você ficará pior." Isso era apenas uma desculpa para me fazer tomar o remédio amargo? Ou talvez era porque eu realmente ficava pior?
...Eu não queria pensar mais nisso. 
Eu tremi, e não por causa do frio.
Eu já estava sofrendo bastante. Mesmo que ficasse pior, as coisas não poderiam mudar tanto assim.
Eu estava totalmente exausta. 
Eu comecei a andar de volta para a cama.

No caminho, trombei com uma parede e derrubei alguns rolos de ataduras. Eles foram rolando para a porta da entrada. 
Como eu fui atrás, de repente, notei uma luz fraca perto da porta. 
...Não podia ser. 
Meu coração batia rápido e com esperança.
Meus olhos e pernas naturalmente se voltaram para a fonte de luz. 
"Mãe...?"
Eu e senti como se fosse há muito tempo desde que eu ouvi minha própria voz. 
Eu vi a sombra enquanto eu falava. 

Mamãe parou à porta. Ela olhou para mim com muita surpresa. Uma lamparina em uma mesa baixa, vagamente iluminava a cena. 
Você voltou?
Eu não conseguia perguntar.
Eu deveria ter me sentido mais feliz, abraçando-a, mas eu não conseguia me mexer.
Por quê?
Foi essa mulher que eu vi antes que me causou tudo isso. 
A aparência de mamãe era muito mais ordenada, como se ela fosse pessoalmente diferente agora.
Seu cabelo despenteado anteriormente estava bem amarrado e com uma fivela, e ela usava um lenço que eu não conhecia em torno de seu pescoço.
Com uma grande mala perto de seus pés, ela olhou como se estivesse se preparando para uma viagem. 

"Você está indo a algum lugar...?", perguntei claramente. 
Eu não estava pressionando-a para obter informações, nem para fazê-la ficar desconfortável. Foi apenas uma pergunta que me veio à cabeça.
O rosto de minha mãe ficou obscuro. Depois de alguma hesitação, ela fez um gesto para se aproximar, então eu corri e a abracei.
Minhas pernas magras doíam. Mas eu estava tão envolta no cheiro de minha mãe, que eu poderia esquecer a dor imediatamente.
"Ellen..."
Mamãe me abraçou. Eu podia sentir o seu temor. Ela chorou sem fazer nenhum som.
Ela estava triste? Se não, porque? Eu não sabia. 
Mas eu encontrei-me triste também e me segurei mais forte nela. 

"Eu sinto muito, Ellen..."
Como?
Na minha imaginação, eu a perdoei pedindo desculpas de novo e de novo. Mas agora, eu senti que ela estava se desculpando por um motivo diferente. 
Eu olhei para ela como se não entendesse. Ela desviou os olhos, incapaz de olhar diretamente para mim.
No momento em que eu vi, meu peito se comprimiu.

De repente, comecei a ver a situação em que eu me encontrava. 
Minha mãe não tinha apenas voltado para casa. Ela estava muito bem vestida. Ela tinha uma grande mala. E ela veio durante a noite, quando papai ainda dormia. 
Apenas olhei.
Mamãe usava sapatos bonitos.
Sapatos brancos que eu nunca tinha visto antes. Papai não era o tipo de pessoa que compraria um desses. Nós nunca teríamos dinheiro suficiente para comprar sapatos caros. 
Então, alguém além de papai estaria comprando estes sapatos. E quem quer que fosse, mamãe planejava sair de casa com ele. 
Eu não queria entender.
Meu corpo gritava. Mas eu não conseguia chegar a nenhuma resposta para essa situação. 
Mãe... 

Minha mãe queria me abandonar. 

O cheiro de minha mãe, que me deu tanto conforto, rapidamente se tornou algo detestável.
A névoa parecia leite branco límpido, e notei que o ar da noite roçou em minha pele. A tristeza em mim tinha desaparecido. 
A chama da lamparina vacilou com o vento no canto de minha visão.
Ao lado dela, havia uma pequena faca usada para artesanato. 

"Convivendo com papai, não é?"
Eu duvidava do que estava ouvindo.
Que coisa absurda ela estava dizendo? Eu olhei para ela cética. 
Papai não via nada, mas você, mãe. 
Você não sabe o quanto ele te ama?
Você não sabe o quanto ele não me ama?
Será que essa mulher realmente acha que meu pai e eu poderíamos nos dar bem?
Mesmo que ele queira tanto você e te ame tanto, que você vai desistir de aceitar o seu amor?

E-

Você vai desistir de me amar também, não é?

Mamãe lentamente se separou de mim e elegantemente limpou as lágrimas. Ela tinha o rosto de uma mãe carinhosa.
Mas eu olhava para ela como se fosse uma mulher que eu nunca vira.

"Fique bem, Ellen."
Ela pegou sua mala e se virou para sair.
"Mãe..."
Eu parei ela naquele instante. Não havia nenhuma emoção em seu rosto, na verdade, parecia que alguém estava falando por mim. 
Ela pôs a mão na porta da frente e hesitou por alguns momentos. Ela olhou de volta com o rosto cheio de afeto.
Baixei a cabeça e murmurei algo que ela não poderia ouvir.
Ela se agachou para me ouvir.

Então -
Eu esfaqueei sua garganta.
Com uma pequena faca que estava perto da lamparina.

O sangue vermelho jorrou. A mulher tentou gritar. Eu não parei. Continuei atacando seu pescoço. Implacavelmente. Uma e mais uma vez. Em todos os ângulos possíveis. A mulher entrou em colapso. Mudei minha mão para continuar esfaqueando-a. Eu subi nela e tomei um banho de sangue.

Eu sabia que o pescoço era fraco.
Porque o gato atacou o pescoço do rato naquele dia e o tornara imóvel.
Meus braços estavam livres.
Meus braços estavam livres.
Lembrei-me do gato preto. O gato lindo que pegou o rato. Suas armas eram suas presas. Eu pensei que eu não tivesse armas. Não era bem assim. Minha arma esteve sempre tão perto. 

Se você não me ama, eu não preciso de você.
Se você é amada, mas não aceita esse amor, eu não poderei te perdoar. 
Eu admito aquilo. Eu admiti que eu odiava minha mãe. E que eu estava com ciúmes dela, como uma mulher que foi amada pelo meu pai. 
Mas, se mamãe se mantivesse a me amar, eu teria mantido meu ódio tampado. 
Eu poderia tê-la amado então. 

Eu me livrei do amor de minha mãe. Das coisas que eu tinha desesperadamente me agarrado. 
Eu engoli seu sangue quente, eu havia percebido. 
Eu conseguia respirar agora. E ainda assim eu teria que me convencer de que eu teria que ir embora, mesmo eu não querendo.
Nas profundezas de um mar de sangue, eu me encolhi e chorei. 

Esse era o meu eu verdadeiro.
Eu era igual as pessoas do beco. Evitei olhar para as coisas que eu não queria ver. Eu queria fingir ignorância. Certamente isso já existia, mas tudo o que fiz foi reconhecer que eu estava lá.
Quando eu levantei meu rosto molhado de lágrimas e sorri, uma mão se estendeu para mim. Eu a segurei. Só então, a mão se tornou uma faca ensanguentada e eu estava na entrada. 
A mulher na minha frente se sentou perto da porta e não falou mais. 

Eu não conseguia mover minhas pernas, e eu senti uma bolha em minha garganta. 
Senti-me nojenta. Senti-me viva. Viver não deveria ter a ver com ser sujo. 
Eu tinha aprendido com o rato que havia morrido. Mas ainda assim, eu tinha aprendido errado? ...Diga-me, gato preto. 
Ainda segurando a faca com força, sentei-me no chão. 
Minha respiração veio da boca do meu estômago.Todo o meu corpo estava quente, com dor e fadigado, mas minha cabeça estava em paz. 
A mulher, que era minha mãe, era agora uma massa que emitia um odor horrível. 
Sujo. 
A visão incitou em nenhuma emoção particular.

Olhei para seus pés. 
Os sapatos brancos foram agora completamente tingidos do vermelho de seu sangue.
Peguei suavemente seus sapatos e olhei para eles. Eu teria de informar ao homem que comprou o sapatos. "Eu sinto muito, mas vocês não podem fugir juntos agora."
Uma gota de sangue gotejou de um rasgo no sapato. 

Um barulho.

Ele veio por trás. Ouvi uma porta sendo aberta na parte de trás da sala. 
Virei só minha cabeça.
Pai. 
Ele lentamente saiu de seu quarto e olhou para mim.

O sapato caiu de minhas mãos direto para o chão.
O que fez minha mão deslizar não era a pressa, arrependimento ou medo.
...Foi um sentimento de exaltação.
Um sorriso fluiu de minha boca. Eu quase gritei de confusão. Eu fiquei com meu coração batendo. Para levantar me e mover me, mas papai tinha uma visão boa do cadáver de minha mãe. 
Os olhos de meu pai vacilaram. Ele apontou para o cadáver com uma mão e se aproximou. A luz da lamparina iluminava claramente seu corpo magro. Ele era como uma casca desgasta. 
Seus olhos encovados tinham um brilho estranho quando ele olhou para o rosto encharcado de sangue da mulher no chão.

Eu estava animada. 
Estava animada porque ele poderia gritar "Você fez isso?". Porque ele poderia usar sua mão para me dar um soco. 
Porque, finalmente, eu poderia ter a atenção de meu pai.
Mas, meu pai, impotente se ajoelhou no chão ao lado do cadáver. Ele segurou o queixo da mulher com a mão trêmula. Uma vez que ele confirmou o rosto, ele abraçou o corpo e começou a chorar com um animal. 
Ele brevemente me surpreendeu, mas ele rapidamente voltou ao seus silenciosos soluços e gemidos.

Fiz um esforço para ficar calma e sussurrar,
"Eu fiz isso."
Eu disse para ele.
Eu tentei esconder o quanto eu gostei. 
"Eu fiz isso, pai."
Tremi ao dizer a última palavra. Eu tinha chamado pelo meu pai inúmeras vezes em meus sonhos, mas nunca antes tinha dito isso realmente. Eu estava a beira das lágrimas. 
Meu pai me olhou brevemente, mas os olhos úmidos não olharam para mim. Eles voltaram para o cadáver da mulher.

Eu tive um pressentimento ruim.
Meu coração tinha batido com expectativa, mas meu peito se enchia de outra coisa. 
Meu pai continuou chamando o nome da mulher. Como que para mostrar meu desassossego, a chama da lamparina vacilou.
"FUI EU! EU FIZ ISSO!".
Eu abri os braços. Algumas manchas de sangue voaram pelo ar. Em minha mão direita ainda estava a faca que eu havia agarrado firmemente. Minha arma. 
Mas meu pai só continuou a chorar e não se moveu um centímetro.
Meu rosto ficou pálido. 

"Pai."
Meu grito tornou-se choro.
Não importava o quanto eu o chamasse, ele nem sequer olhava para mim.
...Por quê?
Por que você não olha para mim? Por que só para ela?
Por que - por que você tem que ficar provando sempre que não me ama?
"Pare."
Pare. Não olhe para ela. Eu não quero ver isso.
Os lamentos de meu pai ficaram mais altos e meu desespero aumentou. Havia muito barulho brotando em meus ouvidos.
Meus dentes batiam.
Meu corpo todo tremia, e eu gritei.
"PARE!!!"

E eu balancei a faca para abrir a cortina dessa cena infernal. 

Parte 5

Eu estava em transe.
Meu braço direito era pesado, como se tivesse sido possuído por um espírito demoníaco. Sangue - sujo - gotejou pela extremidade da faca, manchando o chão. 

Papai caiu em cima de mamãe. Eu vi os dois corpos sobrepostos, não deixando espaço para mim, e isso me irritava.
Ele se agarrou em minha mãe nos seus últimos momentos.
Meu pai não via nada, mas minha mãe sim. A vida sem ela era muito dolorosa para ele. Certo. Portanto, isso foi para o bem dele. 

Eu lentamente me afastei. Então eu notei que a porta do outro quarto permaneceu semi-aberta. 
O quarto de meu pai. Para ser exato, dele e da mulher que já foi minha mãe. 
Eu não conseguia tirar os olhos da fresta da porta. O meu coração batia rápido, mas contente. 
Havia um cheiro doce igual de minha mãe vindo do quarto. Como se eu estivesse sendo empurrada, abri a porta segurando minha faca e entrei. 
Tudo o que eu podia ouvir era o ranger da porta. O quarto estava infestado do aroma doce. 
O suficiente para me deixar engasgada. 

Estava muito escuro lá dentro.
Havia uma cama de solteiro na parede do fundo. Uma vela em uma mesinha lançava uma luz confiável no ambiente. 
Na mesinha haviam pratos e tigelas, bem como um objeto cilíndrico e fino. A fumaça voava dele, e eu sabia que era um cachimbo. 
De meu pai, suponho. 
Este era o lugar de onde o cheiro doce vinha.
Eu lentamente caminhei até a cama. As coisas estava espalhadas por todo o chão, podendo tropeçar se eu não tivesse cuidado.
Cheguei à cama e sentei-me. Foi mais difícil do que sentar em minha cama, e desconfortável. Será que eles deram a melhor cama para mim? Pensando nisso, fiquei com dificuldade para respirar. 
Eu não podia ter certeza. 
Eu olhava para a fumaça do cachimbo. Logo, eu me senti como se tivesse uma visão através da fumaça. Um pai sorridente, uma mãe e eu. Parecíamos uma família feliz. 

Ahh...
Eu funguei. 
Por que isso tinha que acontecer?
A ilusão da família feliz desapareceu, e eu me tornei ciente dos dois cadáveres na porta de entrada, e a faca que eu segurava em meu colo. 
Por que tinha que acabar assim?
Eu só queria ser amada. 
Queria amá-los.
Mas ninguém me amava.
Meus olhos doíam. Talvez a fumaça estivesse irritando-os. Toda vez que eu piscava, minha visão parecia ficar mais desfocada. 
Ninguém me amava.
Por quê?
...Porque eu estava doente?

Toquei as bandagens no rosto, uma confusão de suor, lágrimas e sangue. 
Como se verificando alguma coisa, eu toquei a minha pele rachada. 
"uuugh..."
Cocei minha pele escamosa. Doeu. No entanto, como se estivesse possuída, eu continuei coçando.
Porque eu estava doente - por causa disso -
Ninguém me amava. Todos correm de mim.
Meu pai não olhava para mim.
Mamãe me abandonou. 
O que eu sou?
Ellen. Esse é o meu nome. Mas o que é Ellen?
Uma feia e horrível criança doente? Uma boneca que só olha para o beco? A menina, que, nunca, jamais, seria amada?

"AaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA"

Incapaz de parar apenas em meu rosto, eu comecei a arrancar meus cabelos. Meu cabelo se grudou em minha boca, tornando-se coberto de baba. Doeu. Doeu. Mas o meu coração gritou mais alto.
Só então, eu ouvi um barulho da janela aberta, e eu voltei aos meus sentidos. 
Um vento forte soprou pela janela. Só então, o cachimbo aceso caiu da mesa e começou a queimar um pedaço de pano no chão.
Em poucos segundos, meu cérebro reagiu. Ia provocar um incêndio. Corri para minha vida.

...Isso tudo iria desaparecer.
De repente, meus pensamentos pararam.
Desaparecer?
Por quê?
...Não há nada nesta casa, não é?
Eu me afastei do fogo que aos poucos aquecia, em seguida, corri para fora da casa.

Em um beco, na calada da noite.
Fiquei rapidamente com falta de ar e não conseguiria correr mais do que duas casas a frente. 
Meus pés descalços atingiam a calçada fria. 
Eles foram tingidos de vermelho de meu sangue e o sangue dos outros. Certamente, eu estava deixando pegadas. Talvez eu tivesse nascido para usar sapatos vermelhos. Eu andei como podia. 
A faca derretida que eu segurei para dentro da escuridão, se tornou parte de meu corpo.
Não havia iluminação pública nas favelas. Era no meio da noite, por isso não havia qualquer luz acessa nas casas. 
Tudo o que era iluminado era por causa da lua. Não havia ninguém por perto para me culpar de minhas ações. Aqueles que pudiam me julgar estavam dormindo. 

No caminho, eu tropecei e caí sobre um lugar cheio de lixo.
Haviam pilhas de lixo, sucata, metal e outra porcarias. 
Meu peito e estômago doíam, e eu deitei de bruços. Eu não tinha mais energia para me levantar, apenas para virar a cabela para o lado. 
Deixei escapar um suspiro branco e fui vencida pelo cansaço. 

Na minha mão direita, eu ainda segurava a faca. 
A lâmina suja brilhava devidamente, e meus dedos tremiam de exaustão. 

"Você vai morrer?"

A faca pareceu me perguntar.
Eu balancei a cabeça fracamente.
Eu não posso fazer isso. porque vocês são minhas presas. Um gato não pode morder o pescoço de um rato sem seus próprios dentes, pode?
Fechei os olhos.

O que eu faria agora? Eu vou acordar amanhã, em primeiro lugar. Mas o que aconteceria no dia seguinte? Ou no outro dia?
Tremendo de frio, chorei de dor em minhas pernas e com o estômago vazio, eu iria brevemente cessar meus movimentos, sem dúvida.
E então, talvez, alguém iria me enterrar. 
Talvez uma mão me guiaria para uma cama embaixo da terra. 

Eu sabia que isso não iria acontecer.
Eu enterrei o gato preto, porque ele era uma pequena criatura, frágil. Porque ela era pequena o suficiente para eu carregar em seus braços. 
E eu sabia que bela figura era o gato. Eu sabia do seu belo modo de vida. Eu queria abraçá-lo.
No meu caso, quem me conhece? Quem teria me assistido morrer? E mesmo se eles estivessem assistindo, quem iria pensar que eu fosse bonita?
Ninguém iria dar uma mão para mim. Mesmo se alguém o fizesse, eu tolamente iria embora. 

Eu me imaginei no lugar do gato preto no beco.
Ah... Talvez ele não me fosse meu tipo, afinal. 
Eu parei de pensar nisso. 

Só então -

"Oi."

Uma voz repentina me arrastou de volta à realidade.
Parecia um menino, mas ele tinha um tom de voz estranhamente composto. Eu me senti que ele estimulasse meu corpo que o fez se levantar.
Olhei para o dono da voz, mas não vi ninguém.
"Por aqui, Ellen."
A voz falou meu nome como se nos conhecêssemos há muito tempo. 
Eu olhei em direção a voz, e encontrei um gato preto que sentava-se em uma cerca arruinada. Eu não sabia quando ele havia chegado lá. 

A lua flutuava logo atrás do gato, da mesma cor de seus olhos.
Naturalmente, eu me lembrei do gato preto que eu havia enterrado. Seus olhos eram dourados como os dele. 
Mas foi diferente. Não era ele. Porque ele era um "gato".
A coisa diante de mim agora, não era um "gato". Gatos não podem falar com humanos. 

"Você foi de grande ajuda. Eu ia morrer, eu estava com tanta fome."
Ele lambeu suas patas dianteiras com satisfação. O movimento era exatamente como o de um gato de verdade. 
Eu esfreguei meus olhos. Não era ilusão.
"Eu...", eu murmurei distraidamente. 
"Eu lhe dei alguma coisa?"
Talvez mais feliz eu respondi, o gato saltou enquanto eu falava. 
"Sim! O tom de duas almas saborosas."
Eu levantei uma sobrancelha para o que ele disse. 
O que ele quis dizer com almas?

"Sim, os seres humanos são constituídos de almas e corpos. Você sabia?"
Eu balancei a cabeça ligeiramente.
O gato pigarreou. "A-hem!" e falou. 
"Um ser humano é composto de uma alma e um corpo. Você não pode comê-los enquanto estão vivos. Mas quando morrem, você pode sugar suas almas diretamente e comê-las. Elas não são fáceis de conseguir. E é por isso que fazemos isso, ter alguém para matá-los para que possamos contar. Você passou a fazer isso hoje, e com certeza salvou a minha vida! Mas, se você não estivesse lá, eu não sei o que eu faria... Ei Ellen, você está bem?"

Levantei-me, meus pés ainda estavam tremendo. Meu rosto estava, provavelmente, tão pálido quanto o ar da noite.
"...Você comeu meu pai?"
Eu não sabia o que eram essas almas. Mas parecia que era algo importante para uma pessoa. 
E ele comeu?
Eu senti que essa criatura com forma esquisita a minha frente estivesse contaminando a mente de meu pai. Esquisito, a mulher que uma vez eu chamei de mãe não veio a minha mente. 
"Bem, sim, mas..."
Ele parecia preocupado. Mas foi certamente só aparência mesmo. Ele realmente não estava preocupado. 
"...Ellen. Sim, pode parecer egoísta eu fazer o que quero com as almas das pessoas e usar pessoas como você para meu beneficio. Mas mesmo se eu dissesse que eu não comi, como você teria certeza de que falo a verdade? E o que importa para você se eu comi ou não?"
O gato virou a cauda longa.
Eu não consegui responder.
Foi assim como o gato disse. 

O gato preto olhou para mim em silêncio. Seus olhos tinham a frieza iguais de uma boneca, e eu estava inquieta. Eu inconscientemente desviei o olhar. Meus lábios tremiam de frio e medo. 
O que exatamente eu estava falando?
Suspirei para afastar a sensação de não ter um refúgio. 
Eu senti a dor nas minhas pernas de volta. Meu braço direito doía como as batidas do meu coração. Pensando em como eu estava de pé no pavimento duro e frio, eu fiquei com vontade de chorar.
O que eu ia fazer agora?
Eu pensei, na hora em que vi a lua por trás do gato preto, que ela tivesse mudado para um tom vermelho sinistro, como se um vaso sanguíneo tivesse rompido ali.

"Então, ei, eu quero agradecer a você."
"huh?"
A voz elevada do gato me trouxe de volta. 
"Demônios como nós precisam obter almas de crianças como você. Então podemos dar-lhes a magia como agradecimento. Fiquei pensando que eu pudesse dar-lhe um feitiço muito especial, Ellen."
"..."
Eu levantei uma sobrancelha, não me preocupei em fazer mais nada.
Eu nem sequer tive vontade de falar.
"Ellen, eu vou te dar uma casa."

...Uma casa. 
Isso fez meus olhos se abrirem um pouco. 
O gato preto pareceu notar.
"Você não tem nenhum lugar para ir não é mesmo? Você pode continuar a viver assim? Você simplesmente arrastará suas pernas podres e morrerá nessa cidade suja. Meio chato não? Eu não quero ver isso acontecer com você. Venha comigo, eu insisto."
As palavras do gato tocaram agradavelmente meus ouvidos como uma flor que floresceu em minha cabeça. Um lugar de aconchego. Isso é o que meu corpo frio queria mais do que qualquer outra coisa agora...

"é um incêndio!"
De repente, ouvi um grito.
Eu me virei para a casa e vi que as chamas dentro dela haviam saído. 
As chamas se levantaram, afastando as nuvens ao redor, incapaz de ser parada, queimando com um estrondo.

Eu assisti o fogo com espanto.
A casa, agora eu não poderia mais voltar. 
A casa que nunca me amou. 
Os rostos de meu pai e minha mãe vieram à minha mente. Eles estavam manchados de vermelho na minha memória, sobrepondo-se como o fogo à distância. 
Meus olhos doíam, mas não por causa da fumaça. 

"Que tal isso?", o gato preto perguntou.
Virei-me para ele.
Eu não me importava com essa história de demônio ou magia. Eu só sabia que se eu dissesse que não, eu me tornaria um cadáver naquele beco frio. 
...E eu não gosto de frio. 
Então eu assenti. 
Foi uma ação de desmaio, e, provavelmente, só parecia que eu estava abaixando minha cabeça. 
Mas o gato tomou como uma aceitação, e os meus sentidos sumiram. 

As pessoas iam e vinham, correndo para ver o fogo à distância. 
Mas ninguém notou, em um beco, uma menina e um gato preto que desapareceram como se fossem engolidos pela escuridão. 



Gostou? Compartilhe:

  1. oooh god -*---*- so tem esse capitulo ou tem mais??
    Se tiver por favor continua postando ele o// Muiito bom
    xauzin :]

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Nossa, que história incrível... E triste. Sinto muito pela menina, parece que foi tudo culpa do gato. A continuação da história é o jogo, não é? Dá para imaginar como esse gato é um desgraçado. Não que os pais de Ellen fossem muito melhores, é claro. Obrigado, Morte!

    ResponderExcluir
  4. A história não acaba aí não viu Marcio

    ResponderExcluir
  5. Siim, acaba no jogo. Mas estou falando da história, ela não acaba com Ellen saindo com o gato ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, eu sei! O fim do jogo me deixou tão triste... Tomara que um dia tenha uma sequência! Mas então, tem outro livro ou algo assim? Ou você já tá falando do gam, mesmo?

      Excluir
    2. Sim, entendi! Felizmente eu tô lendo o resto agora, mas parece que tá incompleto... Em todo caso a história é muito boa, gostei muito.

      Excluir
    3. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir

ÚLTIMAS NOTÍCIAS!