Escrito por: Claudia MR

Olá gente! Fiquem com mais uma parte da história!

Os Olhos da Coruja (continuação)


- Gatos. – Apesar de negar a possibilidade, sabia que nos olhos de Mozart veria a mesma certeza que havia naquela coruja branca. – Você faz uma pergunta de “sim ou não” e eles te mandam um “talvez”.
          Mozart se virou e se foi silenciosamente. A noite acabou para mim, chega.
          No corredor algumas lágrimas pediram para cair, ele as negou esse direito. Deitou-se na cama impassível e quieto. Finalmente, depois de se cobrir, o frio deu trégua e com o calor logo o sono veio. Embalando-o com o som dos trovões. Imaginava o som da chuva no cascalho ensanguentado. Estava de novo em seus pesadelos. A noite foi repassada: a bebida, a briga, a arma carregada na mochila, o silêncio gritante. Tudo tinha sido tão lindamente desenhado sem que ele pudesse notar, sem que pudesse evitar. Um desenho tão lindo quanto a morte de alguém. E as imagens de um desejo premeditado e obscuro tornavam o sono sangrento, penoso, horrível e desgostoso. Mas a isso ele já estava acostumado.
        Insensível a tudo aquilo, a mesma coruja se mantinha empoleirada na varanda, escondendo-se da chuva. A pequena fresta entre as portas deixava o ar confuso entrar. A ave escondeu o bico entre a asa e recolheu uma das patas. Em noite de chuva não se caça pelo céu. Uma pena, nem tão grande, nem tão pequena caiu. Uma penugem planou até entrar pela fresta da porta. Pousou no chão da sala. Os olhos amarelos do gato observaram a pena. Quando William acordasse teria a prova de que pesadelos não ficam só na cama.
        Pesadelos não se tornam reais. Sempre foram.

        Acordou, mas não abriu os olhos. A dor de cabeça rastejava, tomando força para derrubá-lo à dor latejante. Decidiu ficar assim por algum tempo, até que a dor se tornasse fluída e constante. Um minuto de silêncio ao morto. Nem todo mundo abriria os olhos naquela manhã. A morte fede. Sentiu Mozart subir à cama. Sentou-se e coçou os olhos. Em meio aos miados do gato, ele derrubou as últimas lágrimas com o mesmo sorriso fútil e falso no rosto.
        - Seria pedir demais se me convidassem para o funeral? 
Então ele abriu os olhos. E lá estava a prova de tudo. A pena branca no chão. Alguma coisa a manchava. Era uma gota minúscula de sangue.
           Silêncio.
           Da janela aberta uma brisa fria entrou no quarto. O cheiro de terra molhada e de chuva o enjoou. E não havia remorso. Ainda estava com a mesma roupa. Esqueça. Levantou-se. Pegou uma jaqueta de couro em cima da cômoda que ficava ao lado da porta. Jeans escuros, regata cinza e a jaqueta. Procurou seu coturno e o colocou. Que seja. Saiu do quarto fingindo que a pluma não estava ali.
          O gato o seguia, estava faminto.
       - O que me diz Mozart, Já está nos noticiários? – O gato sentou ao lado de sua perna e miou. Estavam na cozinha. – “Corpo de jovem é encontrado morto, assassinado em um beco, mutilado, com membros e crânio estourados”.
          “Um covarde”, diriam. “Passou dos limites”, diriam, “estraçalhou o rapaz”. Talvez eu tenha sido um covarde, talvez eu tenha mesmo passado dos limites.
        - Bom, é a vida, não é Mozart? – Ou o fim dela, que seja.
           Alimentou o gato, ele mesmo estava com fome. Como eu queria encher a cara... Desencostou-se da bancada de mármore, pegou as chaves na mesa de centro e olhou para o quarto. Lá estava a pena pousada no carpete de madeira. A madeira cor de marfim, cor tão perfeita que quase escondia a penugem – se não fosse pelo sangue.

          Dane-se.

Depois já começa o capítulo 2!

Até mais!

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  1. Nossa, que saudade do blog. ;u; Pelo menos agora tô com meu pc de volta e agora posso lotar ele com joguinhos do VGD, weeee. Mas enfim. -qqq Vim agradecer de novo por postarem minha história, então... obrigada! ><

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