Escrito por: Claudia MR
  
Olá galera! Enquanto vou preparando meu post de hoje, deixo aqui a segunda parte da história Os Olhos da Coruja, feita pela Ana Laura!


Os Olhos da Coruja (continuação)

- Isso é tão cruel... – A coruja, que continuava na mesma janela, soltou um grunhido mais parecido com um riso irônico. E ele podia jurar que os olhos dela sorriam. – Você não dá a mínima, não é?
  Recostou-se na parede, deixou que seu queixo tocasse o peito. Queria ir embora, mas não podia deixar Jack, o Estripado para trás. A coruja piou. Era irritante, isso não o deixava pensar. Era intrigante.
  - O que é? – Do que esse cretino tem tanta certeza?  – Um piar para sim, dois para não, certo?
   Um piar, leve, quase sarcástico. Eu enlouqueci depois de matá-lo, foi isso.  Afinal, é totalmente normal que... Um emaranhando de pensamentos tornava sua mente e visão turvas. E em todo esse tempo, a coruja não emitiu um risinho sequer. O silêncio podia ser tão mais irritante que aqueles piados.
   A ave voou para cima do telhado. Foi abandonado. Então, ele entendeu que não era um acaso.
  - Talvez eu devesse é ir embora como você.
Sua voz parecia embriagada, talvez realmente estivesse. Talvez fosse a morte que lhe apertava a garganta.
   Um piado sútil deu sua sentença.
   Isso encerrava o primeiro ato.
   Curvou o corpo novamente em um agradecimento inútil.
   Fim.
Sentiu-se saindo da melhor estreia de sua vida. Deu as costas a apenas mais uma personagem. A vida imita a arte e a arte teme a morte. Uma brisa pegou-o de surpresa na saída do beco. Olhou para trás e sua cabeça doeu. Passado? No meio do caminho, hesitou ao passar na frente à velha igreja. O relógio da antiga torre marcava uma da manhã. A falta de vida nas ruas era infernal. Não. Vazio. Continuou o caminho para seu edifício rezando baixo, como se os sussurros ali ditos nunca existissem. Quem sabe?
Eu não sou mais humano.
   A caminhada manteve-se quieta. O chão o distraía. Gotas caíram a sua volta, deixando o asfalto e calçada mais escuros. Olhou para cima e viu o céu cheio de nuvens. Aquelas nuvens estavam ali alguns minutos atrás? Não saberia dizer. Chuva. O sangue ia correr para o esgoto. Que belo e caloroso bom dia a quem abrir a janela e olhar para baixo. Mas que diabo de dia! Que diabo de ótimo dia!
  Riu sozinho. Bom dia.
  Tirando os olhos do chão, percebeu que já estava na rua de seu prédio. O porteiro acenou.        Chegar a essa hora não era estranho, nunca chegava antes das onze da noite. 
   Entrou no saguão e foi até o elevador. Encostou as costas no metal frio e relembrou os atos do que talvez tenha sido seu melhor papel, foi o protagonista e também o vilão. Sentiu o cheiro da pólvora, de sangue fresco, de horror e de mofo. Um sorriso tímido se abriu em seu rosto, suas bochechas estavam avermelhadas de frio. Um sorriso forte o bastante para derrubar um cadáver. O tranco do elevador o acordou de sua ilusão amarga.
   As portas se abriram, ele saiu com um movimento rápido.  Desviou o olhar do fosso. A luz por sensor demorava a acender, mas ele não tinha pressa. Os sons do silêncio. Escutou o elevador fechar. 
  Que irônico. A luz amarelada acendeu e o incomodou por alguns segundos. Sons que já devemos estar tão acostumados que acabam fazendo parte do silêncio. Décimo andar. Sons que nunca poderiam ser escritos na minha própria lápide. Cambaleou até o apartamento 147, bateu a cabeça no batente da porta e, procurando as chaves nos bolsos da jaqueta, começou a cantarolar uma sinfonia qualquer de Beethoven. Achou a chave e entrou no apartamento.
   Ouviu o ronronar baixo de seu gato se aproximando.
- Bom dia, Mozart – a frase provocou um ataque de risos, que logo passou. Um gato branco de olhos... Amarelos.
  Lá fora a cidade dormia e a chuva já caía forte. Raios formavam a pulsação de um novo amanhecer. Os raios pulsavam carregados de uma energia destrutiva. Os clarões eram de um branco vívido. Lindo, ensurdecedor e insano. Sem estrelas, se deteve a ficar em pé observando a noite por uma fresta entre as cortinas da varanda, mais uma noite sem estrelas. O gato roçava entre suas pernas trêmulas e o ronrono ficava mais alto.
  - Errado, não é? As estrelas estão lá, em algum lugar. – Juntas do meu perdão, acrescentou em mente, pois não aguentaria se ouvir dizendo aquilo.
Um miado leve e sonoro soou logo abaixo de si.
  - Um miado para sim e dois para não, é isso?
 Miou, segundos depois, miou mais duas vezes.


Perdeu a parte um?: http://videogamesdeath.blogspot.com.br/2013/11/historia-dos-fas-os-olhos-da-coruja.html#comment-1123481937

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